Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, aos poucos, as linhas de influência no tabuleiro da península coreana, sinais crescentes apontam para a possibilidade de Kim Ju-ae, filha do líder, ser oficialmente designada como sucessora de Kim Jong-un. A hipótese foi reavivada por análises da Coreia do Sul e pela cobertura da agência Yonhap, que reportou declarações de parlamentares sul-coreanos sobre avaliações realizadas durante um briefing do Serviço Nacional de Inteligência (NIS).
Segundo a cobertura citada, os deputados Park Sun-won e Lee Seong-kweun teriam referido que, na avaliação do NIS, Kim Ju-ae “entraria na fase em que será designada para a sucessão”. Trata-se, até aqui, de uma avaliação de inteligência e de observadores externos, mas que ganha peso diante de uma sequência de aparições públicas da jovem ao lado do pai em eventos oficiais.
O sinal mais visível ocorreu em janeiro, quando imagens oficiais mostraram a presença de Kim Ju-ae no Mausoléu de Kumsusan, entre o pai e a mãe, Ri Sol-ju. Para analistas, esse gesto simbólico — visitar o sítio de culto familiar e Estado — é um elemento arquitetônico na narrativa de legitimação dinástica. Observadores estavam divididos sobre o significado, mas, no conjunto, a peça soma-se a outras: desde a primeira divulgação de imagens em novembro de 2022 até a presença ao lado de Kim Jong-un em testes de mísseis e na recente viagem à China.
Fontes abertas estimam que Kim Ju-ae tenha nascido em 2013, o que a tornaria ainda muito jovem para liderar operativamente o aparelho do Estado. Assim, a nomeação pode ter um caráter mais simbólico e de construção de uma linha dinástica — um alicerce político que busca garantir coesão interna e sinalizar continuidade aos vários níveis do poder norte-coreano.
O foco imediato dos analistas está no congresso do Partido, previsto para o final do mês em Pyongyang. Nesse contexto, a hipótese de uma designação formal ou de um papel institucional reforçado para Kim Ju-ae seria um movimento decisivo no tabuleiro — não apenas uma jogada de protocolo, mas um rearranjo de peças na tectônica de poder regional.
Do ponto de vista da diplomacia e da estabilidade regional, a potencial coroação de uma herdeira jovem tem efeitos ambíguos: por um lado, pode conferir previsibilidade à sucessão; por outro, cria perguntas sobre o equipamento do regime para gerir sucessões dinásticas em um ambiente internacional cada vez mais complexo. A arquitetura política da Coreia do Norte segue, assim, sob observação intensa — e qualquer anúncio no congresso será lido como um mapa refeito das alianças internas e externas.
Em suma, enquanto a comunidade internacional aguarda o desfecho no final do mês, o caso permanece um estudo sobre como um regime autoritário modela símbolos e institui práticas de sucessão. Mas a leitura prudente das imagens públicas e das avaliações de inteligência indica que a ascensão de Kim Ju-ae não é mera especulação: é um movimento estratégico em andamento.
Marco Severini — Espresso Italia






















