Em um movimento que reverbera como um lance calculado no grande tabuleiro da política norte-coreana, o líder supremo Kim Jong-un destituiu publicamente o vice-premier Yang Sung-ho, acusando-o de “incapacidade” na condução dos planos de modernização do complexo de maquinário de Ryongsong. A decisão foi anunciada durante a cerimônia de inauguração da primeira fase do empreendimento, segundo informou a agência estatal KCNA.
De acordo com o comunicado oficial, Kim atribuiu a Yang responsabilida-des operacionais graves: atrasos no cronograma, perdas econômicas significativas e deficiências na implementação do plano industrial. O projeto de Ryongsong havia sido lançado como um dos pilares da estratégia de desenvolvimento após o VIII Congresso do Partido dos Trabalhadores, com a ambição de relançar a indústria mecânica nacional — um alicerce concebido para reforçar a autonomia produtiva do regime.
No entanto, conforme exposto pelo líder, a execução se mostrou deficiente e contaminada por “comentários e ações injustas” atribuídas ao então vice-premier, que teriam chegado a ridicularizar o partido. A linguagem pública de reprovação sugere não apenas uma sanção pessoal, mas um aviso adiante da classe dirigente: disciplina e responsabilidade técnica serão exigidas com rigor.
Observadores e analistas interpretam o episódio como parte de um desenho maior — um movimento para reforçar a disciplina entre os tecnocratas econômicos antes do iminente IX Congresso do Partido, quando se espera que a liderança delineie novas orientações econômicas e promova um amplo rimpasto de cargos. Em termos geopolíticos, essa purga técnica funciona como um reajuste interno de pesas no equilíbrio do poder, realinhando competências perante as pressões de produção e frente às expectativas do núcleo dirigente.
É significativo notar a teatralidade do rito: a demissão exposta durante uma cerimônia de inauguração traduz uma mensagem dupla. Por um lado, valida a retórica de exigência de eficiência do regime; por outro, sinaliza que erros gerenciais são politicamente perigosos — especialmente quando se trata de projetos apresentados como estratégicos para a segurança e autonomia nacional.
O episódio ocorre em paralelo a outras declarações recentes de Kim Jong-un, que tem oferecido fio de diálogo com Washington, desde que os Estados Unidos abandonem a exigência de desnuclearização de Pyongyang — uma condição que demonstra a lógica de barganha do regime. Ao mesmo tempo, o líder reafirma a prioridade de acelerar capacidades defensivas caso perceba riscos advindos de exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul.
Em suma, a demissão de Yang Sung-ho é mais do que a queda de um funcionário; é um movimento de recalibração institucional numa fase em que a Coreia do Norte busca reafirmar a eficácia de seus projetos industriais e reajustar sua tática diplomática. Como em um jogo de xadrez, o deslocamento de uma peça revela intenções e prepara o terreno para jogadas futuras — internas e externas — na tectônica de poder que define a península coreana.
Imagem: cerimônia de inauguração do complexo Ryongsong e autoridades presentes (KCNA).






















