Por Marco Severini — Em um movimento que revela tanto a urgência humanitária quanto o jogo estratégico em curso, o presidente ucraniano Zelensky desembarcou em Vilnius para reforçar pedidos de apoio enquanto Kiev ainda conta os danos de mais uma noite de ataques. O quadro exposto aos aliados é grave: centenas de edifícios residenciais permanecem sem aquecimento e a tensão geopolítica se acentua numa lógica de tabuleiro em que cada peça é vital.
Nos últimos dias, segundo dados citados pelo próprio presidente, as forças russas lançaram uma chuva de veículos aéreos e munições: mais de 1.700 drones de ataque, mais de 1.380 bombas aéreas guiadas e 69 mísseis de variados tipos apenas nesta semana. Foi esse assédio sistemático às infraestruturas energéticas que deixou, atualmente, 1.676 condomínios de Kiev sem aquecimento — relato confirmado pelo prefeito Vitali Klitschko — e forçou a evacuação de cerca de meio milhão de pessoas.
Na madrugada, as defesas ucranianas reportaram que a aérea interceptou 87 dos 102 drones lançados, mas houve impactos bem-sucedidos em dez localidades. Entre os armamentos utilizados, destacaram-se dois mísseis balísticos do tipo Iskander, elevando a escala do ataque e a pressão sobre os sistemas de proteção. “Por isso, é necessário receber diariamente mísseis para os sistemas de defesa aérea“, declarou Zelensky ao chegar a Vilnius, frisando a cooperação contínua com os Estados Unidos e parceiros europeus para blindar os céus ucranianos.
O cenário operacional é uma combinação de desgaste técnico e desafio climático: ataques repetidos às redes elétricas em um inverno rigoroso amplificam o risco humanitário e corroem a confiança pública nos alicerces da segurança doméstica. A Ucrânia descreve este inverno como o mais severo desde o início do conflito, tanto pela intensidade das investidas quanto pela cadência das mesmas, que chegam a sobrecarregar defesas e centros de reparo.
No plano diplomático, Zelensky participou das cerimônias do Insurreição de Janeiro em Vilnius e, em seguida, reuniu-se no formato do “Triângulo de Lublin” com os chefes de Estado da Lituânia e da Polônia — Gitanas Nausėda e Karol Nawrocki — buscando consolidar um eixo regional de apoio que compreenda assistência militar, humanitária e sanções coordenadas.
Do outro lado, o porta-voz do Kremlin, Peskov, afirmou que os Estados Unidos “têm pressa em concluir o processo de paz”, comentário que, no tabuleiro estratégico, denota divergências sobre ritmo e condições de qualquer negociação. Essa retórica, somada às operações militares, mantém vivo o risco de escalada e reconfiguração das linhas de influência na Europa oriental.
Como analista, observo que o pedido por sistemas de defesa aérea não é apenas demanda técnica; é uma jogada para preservar a continuidade do Estado, mitigar um colapso humanitário e resguardar a persistência da resistência ucraniana. Cada sistema entregue será um movimento decisivo no tabuleiro: não apenas para derrubar mísseis, mas para proteger a infraestrutura que sustenta a vida civil e a legitimidade do governo em tempos de guerra.
Enquanto isso, a comunidade internacional enfrenta o dilema clássico da diplomacia: acelerar respostas tangíveis ou primar por gestos simbólicos. A robustez da assistência, e a rapidez de sua implementação, serão os sinais mais claros sobre quem busca estabilizar o tabuleiro e quem procura, discretamente, redesenhar fronteiras invisíveis de influência.





















