Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha linhas invisíveis da geopolítica, a Ucrânia registrou em fevereiro o maior volume de ataques noturnos com mísseis desde o início de 2023. Os dados compilados pela Aeronáutica Militar ucraniana e analisados por agências confirmam um salto abrupto na intensidade ofensiva russa, com impactos diretos sobre a infraestrutura civil e a estabilidade social do país.
Segundo a contagem oficial, foram lançados 288 mísseis contra alvos ucranianos ao longo de fevereiro — um aumento de aproximadamente 113% em relação a janeiro, quando foram contabilizados 135 projéteis. Trata-se do número mais elevado registrado em um único mês durante campanhas noturnas desde que os relatórios passaram a ser publicados, superando o recorde anterior de outubro de 2025, quando Kiev relatou 270 mísseis.
Em termos estratégicos, esse incremento configura um movimento decisivo no tabuleiro do conflito: ataques orientados para a rede elétrica e sistemas de aquecimento, executados no auge do inverno 2025/2026, causaram cortes de energia e interrupções de aquecimento para centenas de milhares de cidadãos. Kiev descreve a situação como a pior crise energética desde a invasão em larga escala de fevereiro de 2022.
O contexto diplomático também se acirra. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, saudou a ação da Bélgica de apreender na noite anterior uma petroleira ligada à chamada “frota sombra” russa. A embarcação já estava sob sanções de EUA, UE e Reino Unido, mas, segundo Kiev, continuava a transportar petróleo russo por meio de bandeira e documentação falsas.
Em mensagem publicada na rede X, Zelensky agradeceu o apoio da França à operação e pediu uma modernização da legislação europeia para que navios que transportem petróleo russo não apenas sejam detidos, mas possam ser sequestrados, com o seu conteúdo destinado à segurança europeia. “A Rússia opera como uma organização mafiosa”, escreveu o presidente, defendendo respostas jurídicas e operacionais à altura dessa realidade.
No front militar, há relatos de vítimas em ambos os lados. Na região russa de Bryansk, um ataque com drone no vilarejo de Chernookovo matou uma mulher, conforme comunicado do governador local, Aleksandr Bogomaz, que qualificou o episódio como um ataque terrorista. Na Ucrânia, um ataque russo em Dnipropetrovsk matou um homem e deixou quatro feridos, segundo a administração militar regional.
Do ponto de vista das defesas ucranianas, a Aeronáutica informou ter abatido 110 dos 123 drones de ataque lançados pela Rússia na noite entre sábado e domingo, demonstrando uma capacidade de interceptação significativa, embora insuficiente para impedir danos humanos e infraestruturais em várias frentes.
Como analista, encaro estes desenvolvimentos como parte de uma tectônica de poder em aceleração: a combinação entre campanhas de infraestrutura — visando a resistência civil — e medidas de pressão econômica e legal sobre os canais de exportação russos revela um duplo eixo de contenção e punição. Se no tabuleiro a Rússia aposta em superioridade de fogo para erodir a resiliência, os aliados e a própria Ucrânia respondem com ações jurídicas, logística e defesa aérea, movendo peças em uma partida que não se resolve apenas nos campos de batalha.
Para os próximos passos, duas variáveis serão centrais: a velocidade com que a legislação europeia se ajustará às práticas ilícitas de transporte de petróleo, e a capacidade ucraniana (e de seus parceiros) de proteger infraestrutura crítica no inverno e além. A situação exige respostas calibradas que unam diplomacia, pressões econômicas e reforço das defesas, sob pena de ver os alicerces frágeis da diplomacia europeia se desgastarem ainda mais.






















