Marco Severini | Analista sênior – La Via Italia
Em uma declaração com tom de acusação estratégica, a liderança iraniana apontou diretamente o dedo contra o presidente norte-americano. A Guia Suprema do Irã, Ali Khamenei, afirmou que o presidente Donald Trump é responsável pelas vítimas registradas durante as manifestações recentes, bem como pelos danos materiais e pelas “calúnias” dirigidas à nação iraniana. A mensagem foi divulgada na plataforma X, em correspondência com a celebração islâmica do Eid al-Mab’ath.
O conteúdo das acusações reflete uma leitura de bastidor própria da geopolítica de alta pressão: segundo Teerã, as ondas de protesto foram alimentadas por influências externas — em especial por elementos ligados aos serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel — e por “células” do Mossad e da CIA enviadas ao território iraniano com o objetivo de fomentar a revolta.
No plano público, o Executivo americano respondeu de forma lacônica. Trump declarou aos jornalistas que chegou à decisão de não ordenar um ataque militar por convicção própria e citou como fator dissuasivo a suspensão de execuções previstas no país: “Foram previstas mais de 800 execuções. Não realizaram. Cancelaram as execuções. Isso teve grande impacto”, disse o presidente.
Fontes abertas e reportagens investigativas, como as publicadas pelo Wall Street Journal, indicam que houve um momento em que a operação militar norte-americana esteve próxima de ser autorizada. Havia ordens de preparação encaminhadas ao Pentágono e cronogramas operacionais alinhados para uma ação que poderia ter ocorrido numa janela específica. O ataque, porém, não se concretizou: fatores internos dos Estados Unidos — divergências estratégicas na administração, dúvidas sobre o resultado político de um golpe de força e limitações logísticas na região —, além da pressão diplomática de aliados, teriam levado à suspensão do plano.
Esta sequência de eventos deve ser lida como um movimento no tabuleiro global: cada peça — de Washington a Tel Aviv, de capitais árabes a Teerã — joga com objetivos distintos, mas interdependentes. Para a Guia Suprema, a narrativa externa que atribui às potências ocidentais a paternidade das manifestações funciona como um contramovimento político para recuperar a iniciativa discursiva interna.
Do ponto de vista da estabilidade regional, a retórica de culpabilização mútua e a exposição pública de potenciais planos de ataque alteram a tectônica de poder local. Mesmo sem um confronto aberto, a menção explícita de serviços de inteligência estrangeiros e a ameaça de ação militar produzem um redesenho de fronteiras invisíveis: alianças se recalibram, rotas de influência são revisadas e os alicerces frágeis da diplomacia regional ficam mais expostos.
Como analista, antevejo um período de intensificação retórica e de manobras diplomáticas discretas. As declarações públicas funcionam em duas frentes simultâneas: mobilizar apoio interno e buscar influenciar atores externos. A prudência estratégica, agora, pede vigilância sobre sinais de escalada operacional e sobre tentativas de instrumentalizar as narrativas de segurança para projetos políticos domésticos.
Em suma, a acusação de Khamenei contra Trump é mais do que um ataque verbal: é um movimento político calculado no tabuleiro geopolítico que visa reposicionar o Irã frente aos desafios internos e ao patrulhamento internacional.






















