Por Marco Severini — Na última sessão da Conferência de Segurança de Munique, a ex-primeira-ministra da Estónia, Kaja Kallas, assumiu uma posição firme e calculista sobre o estado atual da Europa e a natureza do desafio russo. Em um painel que contou também com a presença de Christine Lagarde, do presidente letão Edgars Rinkevics, da vicesegretária-geral da OTAN Radmila Sekerinska e da subsecretária das Forças Armadas francesas Alice Rufo, Kallas calibrou diagnóstico e estratégia com a precisão de um jogador que antevê movimentos à frente no tabuleiro.
Recusando narrativas simplistas sobre um Ocidente em declínio, Kallas advertiu contra a visão de uma Europa “woke e decadente”. “Contrariamente ao que alguns dizem, a Europa não está a ser cancelada; as pessoas ainda querem entrar no nosso clube”, declarou, sublinhando que as aspirações à adesão não se limitam apenas a compatriotas europeus. Na sua leitura, há um desejo claro entre os cidadãos — internos e externos — para que a União Europeia proyecte maior poder e responsabilidade global.
Reconhecendo críticas internas, citou o apelo do presidente francês a reformas: “Como disse o presidente Macron em Davos, a Europa por vezes é lenta e precisa de reformas. Mas sabemos quem somos e pelo que lutamos.” A mensagem é dupla: modernização institucional sem perda de identidade civilizacional — um equilíbrio que requer paciência estratégica, mas também decisões decisivas.
No núcleo do seu discurso, Kallas ofereceu uma avaliação dura sobre a Rússia. “A Rússia não é uma superpotência”, afirmou. Após uma década de conflito, incluindo quatro anos de guerra em larga escala na Ucrânia, a Rússia avançou pouco além das linhas de 2014. O custo humano, segundo Kallas, aproxima-se de 1,2 milhão de vítimas. Economicamente, Moscovo surge hoje «destruída», desconectada dos mercados energéticos europeus e com êxodos de cidadãos.
Com a frieza de um analista de geopolítica, advertiu para um risco muitas vezes subestimado: a capacidade de a Rússia obter ganhos maiores à mesa de negociações do que no campo de batalha. “O que importa não é simplesmente ter um lugar na mesa, mas saber o que pedir quando se senta”, disse. Nesse espírito, rejeitou a ideia de aceitar exigências maximalistas com respostas minimalistas: “Se as forças ucranianas forem limitadas, a Rússia também deveria ser. Onde a Rússia causou danos, a Rússia deve pagar.”
Kallas retomou ainda a ligação transatlântica mencionada pelo secretário de Estado americano Marco Rubio, lembrando que “América e Europa estão entrelaçadas” e continuarão assim. A relação, acrescentou, não significa unanimidade em todos os temas, mas fornece uma base estratégica comum.
Fechando o seu argumento, a antiga primeira-ministra convidou a audiência a ponderar alternativas: quando escutamos críticas sobre o declínio dos valores europeus, a pergunta não é apenas defensiva, mas histórica — quais os bens políticos, sociais e económicos que a Europa gerou? A resposta, no seu entender, recomenda reforço das instituições e clareza de objetivos, não resignação.
Em suma, a intervenção de Kaja Kallas na Conferência de Munique foi um movimento calculado no grande tabuleiro da diplomacia: reconhecimento das fragilidades, reorientação estratégica e uma exigência por coerência nas negociações. Em tempos de tectônica de poder, disse implicitamente, é necessário tanto reconstruir os alicerces da diplomacia europeia quanto saber jogar com arte cada jogada no xadrez das grandes potências.






















