Por Marco Severini — Espresso Italia
Vivemos um momento no qual as linhas de frente da diplomacia e da liberdade de expressão se confundem com interesses identitários e legislativos. O crescente movimento, tanto nos Estados Unidos quanto na Europa, de equiparar a crítica a Israel com antisemitismo cria um paradoxo político e jurídico: comunidades judaicas que contestam o projeto sionista são por vezes rotuladas como hostis à própria identidade que professam defender.
É preciso começar pelo cenário externo que molda esse debate. Desde a posse do segundo mandato, em 20 de janeiro de 2025, o Presidente Donald Trump intensificou uma retórica expansionista e provocadora que alcançou o Canadá — sugerindo publicamente, em diversas ocasiões, a integração do país como um hipotético “51º Estado” dos EUA, e afirmando proposições como a adesão gratuita ao “sistema Golden Dome”. Declarações do teor de “por que não se unem ao nosso país?” e comentários sobre a vulnerabilidade canadense no Ártico não são meras bravatas retóricas: elas reconfiguram percepções de soberania e reforçam um nacionalismo de reação.
A resposta canadense foi dura. O Primeiro-Ministro Mark Carney, sucessor de Justin Trudeau após as eleições de abril de 2025, rejeitou de plano qualquer hipótese de anexação: “Não acontecerá jamais, de nenhuma forma”, declarou à BBC. Esses episódios reavaliaram a identidade nacional canadense, com pesquisas indicando forte rejeição à anexação e uma ressurgência de sentimento patriótico que, ironicamente, também afeta a forma como a comunidade judaica local se posiciona em relação à guerra em Gaza.
Um estudo realizado entre novembro de 2024 e janeiro de 2025 por organizações como JSpaceCanada, New Israel Fund of Canada e Canadian Friends of Peace Now, envolvendo 502 eleitores judeus canadenses, mostrou que 53% se opõem à expansão de assentamentos na Cisjordânia e em Gaza. Estes números ilustram uma fragmentação dentro das comunidades judaicas: há vozes judaicas críticas ao projeto expansionista israelense que, não raro, são sujeitas a acusações de antissionismo traduzidas, juridicamente, em antisemitismo.
Na Europa, a mesma tectônica de poder se manifesta por meio de uma crescente adoção, por instituições e governos, de definições amplas do que constitui antisemitismo — instrumentos que, quando utilizados de forma acrítica, podem transformar dissensão política legítima em crime moral. A utilização de definições amplificadas, como a versão operacionalizada da IHRA (International Holocaust Remembrance Alliance) em contextos administrativos e legais, tem alimentado debates sobre os limites entre discurso de ódio e crítica política.
O resultado prático é um quadro jurídico e cultural em que o espaço de contestação democrática à política externa de um Estado soberano é corroído. Grupos judaicos antissionistas, movimentos de solidariedade e acadêmicos que questionam as políticas israelenses enfrentam deslegitimação e pressões institucionais. Tal dinâmica contém um risco estratégico: confluir crítica política com identidade é abrir mão da distinção entre política e pertença comunitária — um erro de cálculo fatal no tabuleiro da estabilidade civil.
Como analista, observo que esse fenômeno é ao mesmo tempo sintoma e motor de uma nova cartografia das influências: fortalece-se um eixo que protege certas narrativas em nome de uma luta legítima contra o ódio, mas fragiliza-se o alicerce pluralista que permite sociedades democráticas debaterem políticas externas. A consequência é previsível: mais polarização, menos deliberação, e um empobrecimento da diplomacia pública.
Em termos práticos, urge que legisladores e instituições adotem critérios claros e proporcionais ao avaliar manifestações críticas a Israel, distinguindo entre apelos à violência e crítica política legítima. Da mesma forma, líderes comunitários e formadores de opinião deveriam preservar espaço para o dissenso interno como mecanismo de saúde democrática.
O risco, caso prevaleça o atalho jurídico-ideológico de criminalizar a dissensão, é um rearranjo de fronteiras invisíveis: fronteiras que amputam o debate, que empurram vozes críticas para a margem e que, no longo prazo, minam a própria luta contra o preconceito. No tabuleiro estratégico contemporâneo, defender a comunidade judaica também exige proteger a liberdade de questionar políticas que impactam vidas e territórios.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional da Espresso Italia.
















