Por Marco Severini — A cena política do Japão vive um movimento decisivo no tabuleiro de poder. Com as urnas prestes a abrir, a primeira-ministra Sanae Takaichi atravessa uma fase de intensa lua de mel política e parece empenhada em transformar essa vantagem em hegemonia absoluta para o Partido Liberal Democrático (PLD).
Assumindo as rédeas de uma formação que, nos cinco anos anteriores, queimou três líderes e cinco executivos, Takaichi recuperou o pulso de um partido que se acreditava degradado e vulnerável a uma virada progressista. A conjuntura interna, marcada por índices de popularidade que oscilam entre 60% e 70%, conferiu à premier um espaço político notável — espaço que ela pretende explorar para devolver ao PLD a maioria perdida.
Segundo as sondagens mais recentes, a coalizão liderada por Takaichi e os seus aliados conservadores do Partido da Inovação (Ishin) tem perspectiva de conquistar mais de 300 dos 465 assentos em disputa. Esse resultado consolidaria um movimento tectônico na configuração parlamentar do arquipélago. Do outro lado do tabuleiro, a nova Aliança Riformista Centrista, formada pelo Partido Democrático Constitucional (PDC) e pelo histórico parceiro de coalizão Komeito, corre o risco de ver reduzida à metade a sua representatividade atual de 167 cadeiras.
Os populistas de Sanseito, que obtiveram 15 assentos no Senado, não representam por ora um fator perturbador para o eixo conservador. A verdadeira batalha é entre os blocos tradicionais e a recomposição do centro-direita, numa disputa que, em termos geoestratégicos, tem consequências que vão muito além do recinto do Parlamento.
Takaichi consolidou sua imagem pública com uma linha dura sobre a imigração e com uma presença midiática calculada — traços que a tornaram particularmente popular entre as gerações mais jovens, onde chegou a se transformar numa figura quase iconográfica nas redes sociais. A primeira-ministra, citada como admiradora de Margaret Thatcher e, segundo relatos biográficos, integrante de uma banda de heavy metal na juventude, combina uma aloof autoridade conservadora com apelo pop.
No cenário internacional a recepção é menos entusiástica. Apesar do recente endosso público do presidente americano Donald Trump, chancelerias e mercados observam com cautela a nova liderança. A razão é óbvia: decisões sobre defesa, comércio e alianças regionais estão em jogo e a previsibilidade de votos não elimina o impacto estratégico de medidas futuras.
Um ponto de fricção com maior repercussão é a postura assertiva de Takaichi para com a China. Frequentadora do santuário de Yasukuni, frequentemente alvo de críticas de países que sofreram a ocupação imperial japonesa, a primeira-ministra declarou, poucas semanas após assumir, que as forças armadas de Tokyo poderiam intervir no caso de uma ocupação chinesa de Taiwan. A declaração, proferida logo após um encontro com o presidente Donald Trump, provocou dura reação do governo de Pequim: convocação do embaixador japonês, avisos a cidadãos chineses contra viagens ao arquipélago, exercícios militares conjuntos com a Rússia e retórica inflamável por parte de facções mais beligerantes do regime — inclusive com insultos violentos dirigidos à líder japonesa.
Até a chamada “diplomacia dos pandas” foi afetada: os poucos ursos pandas remanescentes no Japão foram devolvidos à China como sinal de tensão crescente. Apesar das retaliações, Takaichi manteve sua firmeza e não recuou em suas declarações, postura que, em grande medida, explica parte do aumento de apoio interno. Mas é importante lembrar que a vitória nas urnas possivelmente antecipa um redesenho das fronteiras invisíveis da influência regional, com implicações econômicas e militares que exigirão do novo governo equilíbrio e cálculo paciente.
Como em um jogo de xadrez de alta órbita, a jogada de Takaichi não é apenas mover peças no parlamento: trata-se de consolidar alicerces, gerir alianças, e calibrar a relação com potências vizinhas e com o aliado americano. O resultado da votação pode parecer previsível; as consequências estratégicas, contudo, só começarão a se revelar com o desenrolar da próxima legislatura.






















