Por Marco Severini — Em um movimento que revela tanto a fragilidade das defesas sanitárias quanto a urgência operacional no setor turístico, o Japão está recorrendo a cães farejadores especialmente treinados para detectar percevejos de cama em hotéis e outras acomodações. A iniciativa, parte de uma resposta prática à crescente onda de infestação, lembra um movimento decisivo no tabuleiro: uma peça especializada é deslocada para proteger os alicerces frágeis da hospitalidade.
Historicamente, as populações de percevejos de cama haviam declinado após a Segunda Guerra Mundial, com a disseminação de pesticidas eficazes até a década de 1970. Contudo, segundo dados da Associação Japonesa de Controle de Pragas, o retorno do turismo internacional após a pandemia do Covid-19 — que registrou um recorde de aproximadamente 40 milhões de visitantes estrangeiros no último ano — coincidiu com um aumento sensível das infestações.
A associação, que representa empresas de desinfestação e controle de pragas (abrangendo desde baratas e roedores até mosquitos e percevejos de cama), registrou 1.176 reclamações relacionadas a percevejos em 2023 — cerca de 500 a mais que no ano anterior — e um leve crescimento a 1.185 denúncias em 2024. Esse aumento de ocorrências impulsionou a demanda por serviços cinófilos especializados.
Relatos da imprensa japonesa, incluindo o Asahi Shimbun, indicam que os cães farejadores podem localizar até 95% das infestações quando empregados em inspeções. Entre esses profissionais caninos está Elle, um beagle que veste um colete azul, amarelo e verde e que demonstrou, em testes, a capacidade de identificar recipientes contendo pequenos insetos parasitas com sinais de excitação visíveis quando encontra a fonte.
Elle iniciou suas operações em novembro, verificando um dormitório em Kawasaki destinado aos jogadores do time de futebol J.League Kawasaki Frontale — cuja parceria inclui a Asante Inc., a empresa de desinfestação de Tóquio responsável pelo treinamento. Desde os seis meses de idade, Elle passou por diversos programas de adestramento e, junto a outro cão da Asante, inspeccionou cerca de 4.000 quartos principalmente em hotéis ao longo de 2024.
Os percevejos de cama medem entre 5 e 8 milímetros e costumam se ocultar em fendas de colchões, estrados e estofados. Seus picadas produzem erupções cutâneas e prurido intenso, afetando o sono e o bem-estar dos hóspedes. A capacidade reprodutiva desses insetos — com postura massiva de ovos — facilita a rápida disseminação em ambientes não tratados, transformando um ponto isolado em um problema de escala.
Do ponto de vista estratégico, a solução cinófila representa um ajuste tático: cães especializados atuam como sondas sensoriais que restabelecem uma linha de defesa preventiva no ecossistema turístico. Ainda assim, trata-se de um remédio técnico diante de uma mudança estrutural — o aumento substantivo de pessoas em movimento reconfigura a tectônica de risco para hotéis e pousadas, exigindo políticas integradas de fiscalização, prevenção e comunicação.
Em suma, enquanto a mobilização de cães farejadores coloca uma peça valiosa no tabuleiro, a estabilidade duradoura dependerá de um redesenho coordenado das práticas de controle e da resiliência institucional do setor.
















