Por Marco Severini — Em uma leitura cuidadosa do tabuleiro diplomático, o governo italiano anunciou que não integrará o Board of Peace para a reconstrução da Faixa de Gaza, citando barreiras legais internas. O ministro das Relações Exteriores, Antonio Tajani, afirmou hoje que existem “limites constitucionais insormontáveis” que impedem a participação permanente da Itália no pacto que exige contribuições financeiras e obrigações estatutárias fixas.
O acordo, incentivado pelos Estados Unidos e assinado por 24 países em Davos no dia 22 de janeiro, prevê que Estados convidados a participar de forma permanente comprometam-se a aportar até 1 bilhão de dólares para a reconstrução da região. A primeira reunião inaugural foi marcada para Washington em 19 de fevereiro. Apesar da dinâmica internacional, Roma optou pela prudência institucional.
Na avaliação de Tajani, expressa à margem de um evento do Partido Radical, o ponto de colisão é jurídico: o artigo 11 da Constituição italiana — que disciplina a cessão de soberania — estaria em contradição com o artigo 9 do estatuto do Board of Peace. Segundo o chefe da diplomacia, nem o estatuto do Board nem os vínculos constitucionais podem ser alterados para acomodar a participação italiana.
O ministro deixou claro que essa decisão não representa um esfriamento nas relações com Washington. “Os nossos laços com os Estados Unidos permanecem muito positivos”, afirmou, ressaltando contatos recentes com o senador Vance e o senador Rubio, nos quais Roma reafirmou tanto a qualidade das relações bilaterais quanto sua posição institucional.
Apesar da recusa em integrar o corpo permanente do Board, o governo italiano mantém disposição para contribuir em áreas específicas: Tajani mencionou a disponibilidade de Roma para participar de iniciativas de paz, com ênfase no treinamento da polícia na região, além de esforços humanitários tradicionais como o programa “Food for Gaza”. Essa postura traduz-se em um movimento calculado — abrir espaço operacional sem comprometer os alicerces jurídicos da soberania.
A primeira-ministra Giorgia Meloni já havia sinalizado essa mesma cautela em 26 de janeiro, ao explicar que o artigo 11 permite cessões de soberania apenas em condições de igualdade entre Estados, o que pode conflitar com dispositivos do estatuto do Board. A decisão de não aderir “por ora” foi tomada em consonância com o Presidente da República, Sergio Mattarella, segundo relatos políticos.
Enquanto alguns líderes estrangeiros, como o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, aceitaram convites e confirmaram presença na reunião inaugural em Washington, Roma traça um caminho distinto — mais técnico, menos simbólico. Para um observador de geopolítica, trata-se de um deslocamento estratégico: evitar um compromisso que poderia fragilizar a arquitetura constitucional interna, ao mesmo tempo em que se preservam canais de cooperação multilaterais e bilaterais.
Em termos de diplomacia prática, a posição italiana lembra um lance de xadrez bem calculado: recuar temporariamente numa casa que, se ocupada precipitadamente, poderia abrir brechas nas defesas jurídicas do Estado. A tectônica de poder em torno de Gaza segue em reconfiguração; Roma prefere atuar em corredores operacionais que não exijam alteração dos seus princípios constitucionais.
Resta acompanhar se o encontro de 19 de fevereiro em Washington — e as negociações práticas que dele advirão — abrirão soluções de compromisso que permitam maior participação sem violar os preceitos constitucionais italianos. Até lá, a Itália manterá uma presença seletiva, técnica e circunscrita, insistindo na reconciliação entre compromisso internacional e alicerces jurídicos domésticos.






















