Por Marco Severini — Em um movimento que altera as coordenadas da diplomacia italiana no Mediterrâneo, o governo anunciou que participará como observadora do recém-criado Board of Peace, iniciativa internacional promovida pelos Estados Unidos para a gestão da reconstrução de Gaza. A escolha busca equilibrar interesses estratégicos e restrições constitucionais, mas já provoca um confronto político interno.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Antonio Tajani, confirmou a disposição de Roma em assumir o papel de observador, argumentando que “a Itália não pode ficar fora da reconstrução da Faixa de Gaza”. A decisão evita, na forma, uma adesão formal que poderia colidir com o artigo 11 da Constituição, segundo o governo, preservando cautelosamente os alicerces legais do país enquanto procura manter influência no processo de reconstrução e nas negociações sobre cessar-fogo e desarmamento.
O primeiro encontro do Board of Peace está marcado para 19 de fevereiro em Washington, onde, segundo anúncio do presidente americano, foram prometidos mais de 5 bilhões de dólares para Gaza. A estrutura convocada pelos Estados Unidos pretende centralizar esforços financeiros e políticos sobre a reconstrução, mas já enfrenta críticas: a Autoridade Nacional Palestina classificou a iniciativa como uma “reconstrução sem palestinos”, sinalizando riscos de exclusão das partes locais na formulação das prioridades.
Internamente, a manobra governamental despertou forte reação da oposição, que denuncia um “raggiro della Costituzione” — um artifício para contornar as limitações constitucionais. O debate teve novo capítulo com a confirmação de que Tajani prestará depoimento ao Senado: a audição está marcada para terça-feira, 17 de fevereiro, às 16h45, diante das comissões de Relações Exteriores e Defesa. O presidente do Senado, Ignazio La Russa, informou que a decisão de proceder como observador foi tomada “de comum acordo” entre os representantes dos grupos parlamentares, e que a sessão ocorrerá em comissão devido à agenda parlamentar dedicada aos trabalhos das comissões.
Como analista da geopolítica, percebo nesse passo um movimento calculado no tabuleiro diplomático: a escolha do status de observador funciona como um peão avançado — posiciona a Itália dentro do mecanismo sem ainda comprometer formalmente sua carta institucional. É, ao mesmo tempo, um gesto de protagonismo e uma tentativa de evitar fraturas jurídicas internas. A tectônica de poder em torno de Gaza mostra-se complexa: atores externos procuram definir as regras da reconstrução enquanto as vozes locais e regionais exigem participação efetiva. A consequência provável é um duelo entre legitimidade internacional e soberania dos afetados pela guerra.
O governo afirma querer influir nas condições do cessar-fogo e do desarmamento, utilizando a presença observadora para calibrar contribuições financeiras e políticas. A oposição, por sua vez, vê nessa postura uma erosão dos controles constitucionais sobre decisões de política externa e segurança. Resta ao Senado, na audição com Tajani, fiscalizar com cuidado os termos dessa integração: trata-se de uma jogada que pode redesenhar fronteiras invisíveis de influência — e que exigirá, se Roma pretende ser mais que um figurante, estratégias claras para defender interesses nacionais e a estabilidade regional.
O encontro em Washington nos dias 19 e seguintes será o primeiro teste público dessa opção. Se a promessa de mais de 5 bilhões se concretizar, a distribuição desses recursos e a inclusão dos beneficiários palestinos definirão o grau de legitimidade do Board of Peace. Para a Itália, o desafio será transformar a posição de observador em voz ativa, sem ferir os limites constitucionais nem sacrificar a credibilidade perante parceiros e populações afetadas.






















