Por Marco Severini – Espresso Italia
Em um movimento calculado no tabuleiro diplomático, a premiê Giorgia Meloni anunciou que a Itália aceitará convite para participar como observadora da primeira reunião do Board of Peace dedicada à reconstrução de Gaza, marcada para 19 de fevereiro em Washington. A confirmação foi dada a jornalistas a margem do encontro da União Africana em Addis Abeba, e traduz-se em um compromisso político prudente: presença, mas sem adesão formal ao novo organismo.
A decisão de Roma procura preservar alicerces jurídicos internos — em especial a interpretação do artigo 11 da Constituição italiana, que autoriza limitações de soberania apenas em condições de paridade entre Estados e para fins de paz e justiça. Segundo o governo, o estatuto do Board of Peace, concebido pela Casa Branca, atribui um papel preponderante aos EUA e ao presidente americano, contrariando a lógica de igualdade prevista pela Carta constitucional italiana.
No front externo, a iniciativa de Washington já suscita tensões: o presidente Donald Trump afirmou publicamente que países como Itália e Polônia desejariam aderir — e chegou a declarar que Meloni “quer aderir desesperadamente”. A afirmação norte-americana choca com a prudência manifestada por Roma e com dúvidas expressas por Bruxelas acerca da compatibilidade do novo organismo com os canais multilaterais tradicionais e com os compromissos da União Europeia.
Analistas internacionais observam que o projeto anunciado visa formalmente a gestão da fase de reconstrução da Faixa de Gaza, mas que sua arquitetura sugere um possível redesenho de fronteiras políticas invisíveis: presença marcante de capital privado, um governo tecnocrático imposto e controle operacional sem representação palestina. O organograma divulgado aponta para uma configuração dominada por EUA e Israel, e inclui a proposta de segurança confiada a uma força nomeada como Gaza Stabilization Force, associada a figuras como Jeffers nos retalhos das informações públicas.
Para Roma, a fórmula de observador oferece vantagens estratégicas: permite acompanhar os debates de perto, influir no delineamento técnico e vigiar riscos à soberania italiana, sem firmar compromissos que possam ser contestados no plano constitucional. É, em termos de Realpolitik, uma torre protegida no flanco do tabuleiro: visibilidade e informação, sem exposição total.
O episódio revela, ainda, uma tectônica de poder mais ampla. O logotipo e a semântica do próprio Board of Peace foram lidos por críticos como uma alternativa concorrente ao sistema das Nações Unidas, com linguagem e símbolos que evocam, em tom deslocado, mapas e estruturas de influência hemisférica. Essa disputa simbólica acompanha a disputa material por recursos, controle e legitimidade na reconstrução de Gaza.
Em resumo, a postura italiana desenha um compromisso de cautela: Roma estará na sala como observadora, atenta às jogadas e preparada para proteger os alicerces jurídicos e estratégicos que regem sua política externa. No xadrez global que se forma em torno de Gaza, trata-se de um movimento defensivo, sobretudo orientado a salvaguardar a posição italiana diante de um organismo cuja hierarquia e alcance ainda suscitam dúvidas tanto na Europa quanto no mundo árabe.






















