Quando o ministro da Defesa, Guido Crosetto, comentou o envio dos primeiros militares franceses à Groenlândia, pronunciou uma frase lacônica que cristaliza a posição do governo italiano: “Na Groenlândia 15 soldados enviados para quê? Parece um passeio!”. A observação, proferida durante a apresentação, em Villa Madama, da Nova estratégia italiana para o Ártico, não teve caráter anedótico: foi um movimento calculado no tabuleiro diplomático para delinear limites claros a iniciativas isoladas.
Aquela operação conjunta de França, Alemanha, Suécia, Noruega e Dinamarca em território groenlandês foi lida em Roma como uma resposta às pressões externas — nomeadamente as tentativas públicas de Donald Trump sobre Copenhague — e como um gesto de afirmação. A reação italiana, contudo, é distinta: o Ártico não deve ser terreno para demonstrações simbólicas ou jogadas unilaterais, mas um espaço estratégico a ser gerido por meio de coordenação entre aliados.
A primeira-ministra Giorgia Meloni reiterou oficial e solene essa linha: “A Itália está convencida de que o Ártico deve ser prioridade da UE e da OTAN e che l’alleanza atlantica debba sviluppare nella regione una presenza coordinata, in grado di prevenire tensioni e rispondere alle ingerenze di altri attori”. Em português: Roma demanda uma presença atlântica articulada para prevenir escaladas e conter influências externas.
Embora a Itália não seja um Estado ártico, o documento estratégico governamental reconhece, com a frieza de um cartógrafo de interesses, que o que ocorre nas latitudes setentrionais reverbera diretamente sobre a segurança europeia e sobre a integridade do eixo transatlântico. Deste diagnóstico nasce o compromisso de contribuir para a estabilidade do Ártico no âmbito da OTAN e da UE, em conformidade com uma visão de segurança euro-atlântica “a 360 graus”.
Roma subscreveu recentemente, junto a outros parceiros europeus, a defesa da soberania da Groenlândia — e portanto da Dinamarca — como pedra angular da resposta ocidental. Ao mesmo tempo, o governo não ignora a crescente presença da Rússia e da China na região, fatores que alimentam preocupação em Washington e que tornam imprescindível uma reação coordenada.
Mas a contribuição italiana, nas palavras do documento, tem ênfase em capacidades não convencionais: expertise em cyber-resiliência e proteção de infraestruturas críticas; cooperação em sistemas satelitais para vigilância marítima, monitoramento ambiental e controle das rotas árticas; e disseminação de best practices OTAN–UE contra ameaças híbridas que não necessariamente se materializam em quebra de fronteiras ou em movimentos convencionais de tropas.
Esta abordagem busca conciliar duas exigências aparentemente opostas: o respeito pela soberania dos territórios autônomos e a necessidade de não permitir que o Ártico se torne palco de fragmentações entre parceiros ocidentais. Em termos de estratégia, é um movimento que evita a precipitação — uma escolha de xadrez estratégico, que prefere consolidar o centro do tabuleiro antes de avançar com peças de flanco.
Na prática, espera-se que a Itália atue como fornecedor de capacidades tecnológicas e de inteligência colaborativa, reforçando a resiliência das infraestruturas e contribuindo para um sistema de alerta e vigilância que amplie a consciência situacional aliada. Esse posicionamento reflete uma leitura realista: a estabilidade do Ártico é tanto uma questão militar quanto um problema de governança, meios tecnológicos e normas compartilhadas.
Em última instância, Roma propõe um caminho de arquitetura coletiva — um redesenho de fronteiras invisíveis através da coordenação política e técnica entre aliados — para que o Ártico não se transforme no nó de novas rivalidades, mas permaneça um espaço sujeito ao direito, à cooperação e ao equilíbrio de poder.






















