Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance cuidadoso em um tabuleiro diplomático, o embaixador da Alemanha em Roma, Thomas Bagger, afirmou que Itália e Alemanha “não foram tão alinhadas há décadas”. Em discurso proferido na aula magna da John Cabot University, em Trastevere, Bagger — no posto há cinco meses — qualificou as relações bilaterais como uma “sintonia” marcada por familiaridade entre a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni e o chanceler alemão Friedrich Merz.
O contexto prático desse acercamento foi o encontro intergovernamental de 23 de janeiro, que consolidou uma cooperação cujo primeiro resultado concreto, segundo o embaixador, é a convocação de um Conselho da UE extraordinário para 12 de fevereiro. Nesse encontro, figuras como Mario Draghi e Enrico Letta devem acompanhar uma discussão política centrada nas agendas que elaboraram sobre competitividade e mercado único de capitais. A convergência foi igualmente enfatizada por Merz em seu discurso no Fórum de Davos.
Na lição do dia 2 de fevereiro, o embaixador, um diplomata de perfil discreto e experiência de Estado, disse sentir-se “o embaixador no momento certo” — expressão que constava na brochura do evento, intitulada “um ano de oportunidades para a Alemanha e a Itália no meio de mudanças geopolíticas”. O diagnóstico de Bagger incluiu uma observação estratégica: o tradicional eixo franco-germânico sofre um enfraquecimento, em parte devido a dificuldades internas na França e na Polônia, abrindo espaço para um reposicionamento entre Berlim e Roma.
Quanto ao conteúdo da agenda que será discutida no Conselho do dia 12, o embaixador enumerou três vetores principais: (1) política normativa e simplificação regulatória; (2) política industrial com objetivo de fortalecer a inovação europeia em novas tecnologias e setores nascente; (3) como mobilizar o poder financeiro necessário para capitalizar a criatividade e a capacidade técnica da Europa.
Bagger frisou que a reunião de 12 de fevereiro não é uma solução definitiva, mas um passo inicial — “não se resolverá em uma reunião ou em um dia” — e tem caráter preparatório para moldar a agenda de 2027. Em conversas com colegas em Berlim, segundo ele, a posição italiana em numerosos dossiês industriais em discussão em Bruxelas tem-se mostrado amplamente alinhada com a visão alemã. Esse alinhamento operacional, acrescentou, torna-se mais eficiente graças a canais de comunicação direta e permanente entre os dois governos, com o objetivo de agregar outros parceiros europeus.
Do ponto de vista geoestratégico, assistimos a um redesenho de fronteiras invisíveis na arquitetura europeia: onde antes persistiam alicerces franco-alemães, hoje surgem novas placas tectônicas de influência que exigem leitura cuidadosa por parte de capitais e governos. A convergência italo-alemã sobre competitividade e mercado de capitais coloca Roma e Berlim como atores centrais na tentativa de reequacionar o poder econômico europeu, combinando políticas industriais, energia e instrumentos financeiros.
Como analista com passagem por diplomacia e teoria das grandes potências, interpreto esse alinhamento não como uma colagem temporária, mas como um movimento tático — um lance que visa construir consensos práticos na Europa em um período em que velhos pactos revelam fissuras. Resta verificar se essa sintonia resistirá à pressão dos interesses nacionais em momentos de crise e à complexidade das negociações multilaterais. Por ora, Berlim e Roma jogam uma partida coordenada com ambições claras: transformar convergência política em capacidade de ação econômica duradoura.






















