Em mais um movimento que redesenha fragmentos sensíveis do mapa moral e jurídico do conflito, diversas organizações não governamentais denunciam que Israel estaria retendo os corpos de 766 palestinos, alguns por mais de dois anos. Do total, cerca de 520 cadáveres estariam conservados em obituários militares, onde há acusações de retirada de órgãos sem consentimento; outros 256 corpos estariam sepultados em cemitérios militares secretos, identificados apenas por números atribuídos pelo Shin Bet.
As fontes das ONGs, relatas em relatórios amplamente repercutidos internacionalmente, apontam que pelo menos 88 palestinos entre os corpos retidos morreram enquanto estavam sob custódia israelense nos últimos dois anos. A prática ocorre apesar de, segundo as mesmas fontes, o Hamas ter devolvido os cadáveres dos cidadãos israelenses capturados em 7 de outubro de 2023.
Segundo os documentos e depoimentos recolhidos, muitos dos que foram mortos tinham sido alvejados por forças israelenses em operações na Faixa de Gaza e na Cisjordânia ocupada. Outros faleceram quando detidos, em circunstâncias que organizações de direitos humanos vinculam a abusos e a condições de encarceramento severas, frequentemente sem o devido processo legal.
Uma acusação recorrente nas denúncias refere-se ao tratamento dos corpos nos obituários militares: relatos apontam para a prática de espianto de órgãos sem consentimento das famílias. A antropóloga Maira Weiss, em seu livro Over Their Dead Bodies, documentou casos antigos de prelevação de tecidos e órgãos no Instituto Abu Kabir entre 1996 e 2002, sobretudo de cadáveres palestinos — um precedente que fornece contexto histórico às atuais alegações.
As denúncias evocam um padrão que remonta a décadas: ONGs já documentaram a retenção de corpos palestinos desde 1948, com túmulos anônimos que, em alguns casos, seriam de vítimas dos conflitos de 1967 e anos posteriores. Os locais onde esses corpos são enterrados tornaram-se, para as comunidades palestinas, simbolicamente inaceitáveis — verdadeiros «cemitérios dos números», onde a identidade é substituída por códigos e a memória é erodida.
No tabuleiro geopolítico, a retenção de corpos produz efeitos múltiplos: é uma pressão simbólica sobre famílias e comunidades, um elemento de poder psicológico e uma questão que perfura os alicerces do direito internacional humanitário. Assimetria de estatuto, segredo e impunidade compõem uma tectônica de poder que as autoridades israelenses precisam responder de maneira transparente para evitar um aprofundamento da crise diplomática.
Organizações internacionais e grupos de direitos humanos têm exigido investigações independentes, acesso de familiares aos restos mortais e a cessação de qualquer prática que viole normas médicas e jurídicas. Do ponto de vista estratégico, essa matéria não é apenas humanitária: é um nó diplomático que afeta a legitimidade e a arquitetura das relações entre atores regionais e a comunidade internacional.
Como analista, observo que a questão dos corpos é uma jogada em vários níveis do tabuleiro: memoriais e sepulturas se tornam peças de disputa, e a recusa em esclarecer práticas potencialmente ilícitas compromete alicerces frágeis da diplomacia. A resposta internacional — se pautada por investigações imparciais e medidas legais — determinará se essa disputa será contida ou se agravará, redesenhando fronteiras invisíveis de influência e repercussão moral.
Em suma, as alegações de retenção de 766 cadáveres palestinos e as acusações de espianto de órgãos impõem um desafio urgente à transparência e ao cumprimento do direito internacional; um movimento decisivo no tabuleiro exigido por comunidades, ONGs e governos que ainda defendem a primazia dos direitos e da dignidade humana.






















