Por Marco Severini
Em um movimento que refaz, em silêncio, traços da tectônica de poder no Mediterrâneo oriental, Israel e os Estados Unidos avançam em direção a um acordo para a venda de GNL ao Egito e à União Europeia avaliado em cerca de US$35 bilhões. O pacto, articulado em corredores diplomáticos e sob intensa pressão norte-americana, conjuga interesses energéticos e considerações geopolíticas que ultrapassam a mera lógica comercial.
Paralelamente, a americana Chevron aprovou um aporte de investimento de US$2,36 bilhões destinado à expansão da produção no campo de gás Leviathan, uma das maiores descobertas gasíferas do Mediterrâneo oriental. O projeto — conduzido por Chevron Mediterranean Ltd em conjunto com NewMed e Ratio Energies — visa elevar a capacidade de extração e converter parte desse volume em fluxos regulares para o mercado regional e europeu.
Segundo as informações divulgadas pelas partes, a ampliação permitirá acrescentar cerca de 9 bilhões de metros cúbicos por ano (bcm/ano) às entregas de gás natural destinadas ao Egito, elevando o total destinado ao país norte-africano para aproximadamente 21 bcm/ano. O excedente não consumido pelo mercado interno egípcio seria liquefeito em terminais locais e exportado à União Europeia, em um desenho que transforma infraestruturas egípcias em plataforma de trânsito estratégico para o gás do Levante.
O campo Leviathan possui uma estimativa de recuperação na ordem de 635 bilhões de metros cúbicos, e a operação ampliada tem previsão de entrar em serviço em 2029. Caso concretizada, a expansão elevaria a produção israelense em mais de 25%, redesenhando capacidades de exportação e incrementando a influência de Israel na segurança energética regional.
Politicamente, o anúncio ganhou um contorno ainda mais complexo. O primeiro‑ministro Benjamin Netanyahu vinculou a iniciativa a um entendimento com o presidente egípcio Abdel Fattah al‑Sisi — acordo que, conforme reportagens, incluiria disposições de caráter sensível sobre o deslocamento de civis palestinos para além do posto de fronteira de Rafah. Trata‑se de uma alegação que une cálculo estratégico e custo humanitário, conforme reportado por veículos próximos aos desenvolvimentos diplomáticos.
Do Cairo, vozes oficiais manifestaram reservas: Diaa Rashwan, chefe do Serviço de Informação do Estado egípcio, advertiu que o governo não pretende ser “cúmplice” de uma ação que considere injusta, assinalando que um eventual avanço militar israelense na faixa de Gaza poderia colocar o acordo energético em risco. A administração egípcia, igualmente, destaca a necessidade de preservar sua posição política e a estabilidade interna diante de pressões externas.
Na leitura estratégica, estamos diante de um movimento de xadrez em que energia e política externa se sobrepõem. O fluxo de GNL transformaria o Egito em um nó logístico para o abastecimento europeu, enquanto o incremento da produção em Leviathan reforçaria a alavancagem de Israel frente aos mercados. Ao mesmo tempo, a sensibilidade do tema palestino e a resistência egípcia mostram que os alicerces dessa diplomacia energética são frágeis e dependentes de estabilidade no terreno.
Em termos práticos, cifras e cronogramas permanecem condicionais: as partes estimam que a expansão entre em operação em 2029, e que as vendas já registraram volumes relevantes — NewMed reportou vendas de aproximadamente 10,9 bcm em 2025 — mas os desfechos dependerão da convergência entre interesses comerciais, pressões americanas e a dinâmica política regional.
Como analista, observo que este episódio ilustra uma regra clássica da Realpolitik: recursos estratégicos tornam‑se peças de manobra no grande tabuleiro, onde cada investimento e cada declaração correspondem a movimentos calculados para assegurar influência, mercados e alívio de riscos energéticos europeus. O desafio para os atores será conciliar estas metas com a necessidade de evitar uma sequência de desestabilizações que poderiam, ironicamente, minar os próprios fluxos comerciais que se pretende garantir.






















