Por Marco Severini — A tectônica de poder no tabuleiro do Mediterrâneo oriental ganhou, nas últimas semanas, um movimento decisivo e inquietante: Israel vem ampliando sua presença militar em Gaza para além da chamada linha amarela, estabelecida no acordo de cessar-fogo de 10 de outubro. Fontes independentes, organizações não governamentais e análises de imagens de satélite apontam para um redesenho silencioso das fronteiras operacionais, que pode consolidar uma militarização permanente da Faixa de Gaza.
ONGs que atuam na região denunciaram que a Idf está deslocando blocos de cimento que delimitavam a linha amarela — em alguns trechos até 300 metros para dentro da Faixa de Gaza —, removendo limites que deveriam marcar o máximo do seu avanço segundo o acordo. Trata-se de uma mudança material no terreno, não apenas de narrativas: imagens de alta resolução confirmam a movimentação de estruturas e a construção de novas posições.
Um relatório do jornal Haaretz, datado de 15 de janeiro e corroborado por dados da organização britânica Forensic Architecture, indica que desde a entrada em vigor do cessar-fogo Israel ergueu pelo menos 13 novos postos avançados militares dentro da Faixa. Entre estes, dois destacam-se por dimensões e visibilidade na área de Jabalia — estruturas elevadas, erguendo-se sobre terrenos nivelados após ampla demolição de edifícios civis. A finalidade evidente é garantir um controle visual e operacional estendido sobre amplas porções do norte da Faixa.
O relatório do Haaretz e as constatações de analistas independentes impõem um enquadramento geopolítico claro: o avanço físico sobre o terreno cria, de fato, alicerces frágeis, porém reais, para uma ocupação de caráter mais permanente. A movimentação de blocos, a construção de presídios e a presença continuada de tropas constituem um processo cumulativo que altera o equilíbrio local e as perspectivas de retorno à normalidade.
O New York Times, com base em imagens da constelação Planet Labs, aponta que mais de 2.500 edifícios foram destruídos por ações israelenses nos dois meses anteriores — incluindo bairros inteiros, terrenos agrícolas e estufas. Embora a maioria das destruições tenha ocorrido formalmente a leste da linha amarela, várias demolições foram registradas a oeste da linha, evidenciando que o impacto humanitário e territorial ultrapassa a delimitação formal do cessar-fogo.
Há ainda relatos não confirmados oficialmente sobre planos israelenses para uma nova ofensiva em Gaza City já em março, um movimento que, segundo fontes internas, dependeria de aval externo — em especial de influências políticas internacionais. No debate público interno, vozes como a do ministro da Defesa têm reforçado a intenção de manter presenças permanentes e de ampliar avampostos no norte, o que contrasta diretamente com a frágil arquitetura de paz em construção.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de um redesenho de fronteiras invisíveis: não é apenas a engenharia do terreno que muda, mas a cartografia do controle. Cada bloco movido, cada prédio demolido e cada posto erguido representa um passo no jogo por domínios, com consequências diretas para a governabilidade, a reconstrução civil e a segurança regional.
Como analista habituado aos corredores da diplomacia, sublinho que movimentos desse tipo não se restringem ao impacto imediato: eles constroem precedentes, moldam percepções e, sobretudo, criam fatos consumados difíceis de reverter sem um acordo político robusto. Os alicerces da diplomacia são frágeis quando confrontados com a matéria sólida do controle territorial: é nesse espaço entre o mapa e o solo que se define o futuro de Gaza.
Fontes: Haaretz (15/01), Forensic Architecture, New York Times / Planet Labs, relatórios de ONGs locais e análises de imagens satelitais. Espresso Italia continuará acompanhando com atenção os desdobramentos sobre o terreno, avaliando impactos estratégicos e humanitários.
















