Por Marco Severini — Em um movimento que ecoa mais como correção tática do que como escândalo imprevisível, Israel decidiu auto-suspender sua equipe de bob nos Jogos de Milão‑Cortina 2026 após a constatação de uma declaração falsa destinada a viabilizar uma substituição proibida. A ação foi anunciada pelo Comitê Olímpico Israeliano em comunicado reproduzido pelo Times of Israel.
Na sessão anterior, a equipe israelense havia competido com AJ Edelman, Menachem Chen, Uri Zisman e Omer Katz. Pelas listas oficiais desta manhã, a formação prevista para a prova incluiria Edelman, Chen, Ward Fawarseh e Katz. Fawarseh integra a delegação como reserva, e o regulamento permite entrada de suplente apenas em casos de doença ou lesão comprovada de um titular.
Segundo o Comitê Olímpico Israeliano, “a equipe de bob solicitou a inclusão de Ward Fawarseh, parte do time mas apenas como reserva, na competição. Para que isso fosse possível, um dos membros da equipe, incentivado pelos companheiros, declarou não estar bem. Foi submetido a exame médico e assinou declaração juramentada para que o Comitê solicitasse aprovação para a substituição”.
O episódio assume contornos de prudência institucional quando o próprio atleta que prestou a declaração confessou ao chefe da delegação que agira de modo impróprio. Diante da admissão, o Comitê optou por retirar o pedido de substituição e impedir a participação da nova formação, impondo a auto-suspensão da equipe. A conduta foi qualificada como “imprópria” e contrária aos princípios de correção e fair play.
O significado simbólico da decisão é notável: se tivesse competido, Ward Fawarseh teria se tornado o primeiro atleta druza a participar dos Jogos pela delegação israelense. A perda dessa estreia histórica é consequência direta do que o Comitê descreveu como um episódio de má conduta interna — um pequeno deslize que redesenha, temporariamente, a tabulação do prestígio esportivo.
Do ponto de vista estratégico e institucional, trata‑se de um ato de disciplina preventiva. Em vez de tentar contornar as regras e arriscar sanções externas que poderiam agravar a exposição da delegação, o Comitê Olímpico Israeliano preferiu sancionar-se publicamente, protegendo, assim, os alicerces da governança esportiva. É uma jogada defensiva no tabuleiro da reputação internacional: admite‑se o erro, impõe‑se a correção.
As repercussões imediatas serão internas — possíveis medidas disciplinares, revisão de procedimentos e reflexão sobre cultura de equipe — e externas, na imagem de Israel como ator que busca preservar a integridade institucional. Nos bastidores, a decisão envia uma mensagem clara sobre tolerância zero a manipulações regulamentares, ao mesmo tempo em que priva a delegação de um feito simbólico para minorias que, no longo prazo, poderia reforçar laços internos e projeção internacional.
Em suma, o episódio é um lembrete: no xadrez da diplomacia esportiva, movimentos aparentemente pequenos podem alterar linhas de ataque e defesa. A escolha do Comitê olímpico revela uma prioridade por estabilidade normativa e legitimidade perante os pares — preferindo um sacrifício imediato à erosão dos fundamentos da sua autoridade.






















