Por Marco Severini — A recente indicação de Billy Long como embaixador dos Estados Unidos em Reykjavik reacendeu um debate que, à primeira vista, poderia parecer retórica eleitoral: a sugestão pública de que a Islândia deveria tornar‑se o 52º Estado norte‑americano. Em tempos em que a fina articulação da ordem euro‑atlântica se apoia em equilibrios delicados, tais palavras não são mera hipérbole; representam um movimento que provoca reação imediata e preocupação entre aliados históricos.
As declarações do ex‑congressista do Missouri — figura próxima à administração de Donald Trump — foram recebidas em Reykjavik com crescente inquietação. Uma petição pública destinada a convencer o governo islandês a vetar a nomeação do embaixador designado ganhou tração entre os cidadãos, expressando um inédito nível de mobilização cívica diante de uma escolha diplomática. Em paralelo, o Ministério das Relações Exteriores da Islândia teria solicitado esclarecimentos formais ao governo norte‑americano, segundo fontes diplomáticas.
Não se trata apenas de uma quimera presidencial repetida em comícios. No contexto atual — marcado por uma retórica percebida como anexionista por parte de setores do entorno de Trump — tais proposições redesenham, ainda que simbolicamente, as fronteiras invisíveis do poder. A menção repetida a possíveis expansões territoriais, que já incluiu referências à Groenlândia e eventualmente ao Canadá como hipotético 51º estado, passa a integrar um padrão retórico que exige interpretação estratégica.
Para avaliar a gravidade do episódio é preciso recordar a história: a relação militar entre os Estados Unidos e a Islândia data da Segunda Guerra Mundial. Em 10 de maio de 1940, tropas britânicas desembarcaram na ilha sob o pretexto de defesa; o governo islandês protestou por entender que sua neutralidade fora violada. Em julho de 1941, com o esforço britânico sobrecarregado, os Estados Unidos assumiram a responsabilidade militar, desdobrando até 40.000 soldados em uma população que, na época, contava cerca de 120.000 habitantes. Essa presença alterou profundamente a geografia de segurança local e cimentou a importância estratégica da Islândia no eixo euro‑atlântico.
O episódio atual deve ser lido nesse contínuo histórico: não é apenas a evocação de um estatuto político — é o questionamento dos aliceros frágeis da diplomacia entre aliados. NATO, bases estratégicas, rotas de vigilância no Atlântico Norte e a percepção de soberania islandesa formam um conjunto no qual qualquer palavra calcula consequências no tabuleiro internacional. A nomeação de um embaixador que publicamente sugere a anexação pode minar, mesmo que simbolicamente, a confiança necessária para operar em conjunto.
Há, também, um componente doméstico norte‑americano que não deve ser desprezado: debates sobre territórios como Porto Rico, Guam e outras possessões americanas continuam sem resolução definitiva, com plebiscitos circulando e diferentes interpretações constitucionais sobre cidadania e status. Inserir a Islândia nessa narrativa — além de ser geo‑politicamente imprudente — revela uma estratégia de comunicação que mistura ambições regionais com cálculo eleitoral.
Como analista com olhar de tabuleiro, observo que movimentos verbais dessa natureza funcionam como sondagens: projetam intenção, testam reações e, se não forem contidos, podem alterar alinhamentos. A resposta de Reykjavik — institucional e popular — demonstra que aliados sabem proteger seus interesses simbólicos e reais. Resta ao Departamento de Estado dos EUA, caso queira preservar a unidade atlântica, clarificar se se trata de desvario retórico ou de um redirecionamento estratégico real. Até lá, a tectônica de poder no Atlântico Norte seguirá com seus alicerces sob escrutínio.





















