Bagdá — Em um movimento decisivo no tabuleiro diplomático do Oriente Médio, o Quadro de Coordenação Xiita anunciou a retirada da candidatura de Nuri al‑Maliki ao cargo de primeiro‑ministro do Iraque. Fontes internas, citadas por redes de informação e por indivíduos próximos ao chamado “deep state”, indicam que a decisão decorre diretamente de fortes advertências vindas do governo dos Estados Unidos, personificadas em declarações do ex‑presidente Donald Trump, que condicionou a continuidade de assistência e apoio a Bagdá à não eleição de al‑Maliki.
Segundo relatos, a ameaça norte‑americana de reduzir ou suspender ajuda militar e financeira foi recebida como pressão insustentável por setores do espectro político xiita, levando o Quadro de Coordenação Xiita a optar por sacrificar a candidatura do antigo chefe de governo para evitar um confronto direto com Washington. Trata‑se de um movimento que altera a tectônica de poder regional: o afastamento de uma figura histórica como al‑Maliki abre caminho para negociações internas visando um nome de compromisso, ao mesmo tempo que sinaliza a capacidade de influência americana sobre equilíbrios sensíveis na capital iraquiana.
O próprio al‑Maliki, primeiro‑ministro entre 2006 e 2014, é lembrado por uma linha que muitos em Washington consideraram, na época, mais próxima de Teerã. Por esse motivo, o seu retorno era visto pelos EUA como elemento potencialmente desestabilizador para a capacidade americana de atuação na região. A retirada oficial da candidatura, conforme apurado, já desencadeou um processo de consulta entre as facções xiitas para identificar um sucessor aceitável — um nome que, na leitura dos estrategistas, deverá ter perfil mais moderado em relação ao eixo iraniano.
Reações no terreno não tardaram. Milícias e grupos pró‑iranianos, incluindo membros do movimento Kata’ib Hezbollah, fizeram críticas severas, alegando que a capitulação às exigências externas representa uma violação da soberania iraquiana. Em paralelo, manifestações de rua de caráter pró‑Teerã intensificaram‑se, culminando em tentativas de assalto à Green Zone de Bagdá e confrontos nas proximidades da embaixada dos Estados Unidos. As imagens dos confrontos — com gritos antiocidentais — evidenciam o risco de radicalização das bases que apoiavam al‑Maliki e a complexidade de substituir um líder com forte base sectária.
Do ponto de vista estratégico, a situação revela uma arquitetura de poder em movimento: os alicerces da diplomacia iraquiana mostram‑se frágeis quando expostos à coerção econômica e militar. Para o Irã, a retirada pode representar uma derrota simbólica na luta por influência, forçando Teerã a recalibrar seu leque de aliados e instrumentos de projecção federal no país vizinho. Internamente, as forças xiitas enfrentam agora um dilema — conciliar interesses locais com a necessidade de manter estabilidade institucional e evitar perdas de recursos essenciais provenientes do exterior.
Na linguagem do xadrez geopolítico, foi jogado um lance de contenção: os Estados Unidos moveram‑se para evitar um retorno de uma peça cuja presença no tabuleiro poderia alterar linhas de influência. Cabe agora às lideranças xiitas encontrar um nome que evite tanto a marginalização por Washington quanto a ruptura com as milícias pró‑iranianas — um equilíbrio delicado entre soberania e pragmatismo.
As próximas semanas serão cruciais. O processo de negociação interna tende a ser intenso e envolverá mediações discretas entre figuras estaduais, partidos religiosos e atores externos. A escolha do sucessor de al‑Maliki poderá determinar não apenas a estabilidade imediata do governo, mas também o desenho das fronteiras invisíveis de influência entre Bagdá, Teerã e Washington — um novo capítulo na cartografia de poder do Levante.
Marco Severini — Espresso Italia






















