Por Marco Severini — A emergência atual no Oriente Médio é, nas palavras dos estrategistas, um movimento de alto risco no grande tabuleiro geopolítico. O recente e mais volumoso destacamento militar dos EUA na região desde a invasão do Iraque em 2003 — com navios, bombardeiros e sistemas antimísseis em massa — não é apenas uma demonstração de capacidade operacional: é sobretudo uma mensagem política e psicológica dirigida a Teerã, aos aliados regionais e aos parceiros globais.
Washington, em conluio tácito com Tel Aviv, aplica uma forma de diplomacia armada cujo objetivo duplo é desbloquear vias de negociação favoráveis e reafirmar o primado militar do eixo euro-atlântico. O gesto busca produzir efeitos estratégicos equivalentes aos de um movimento posicional no xadrez: ocupar linhas-chave, limitar opções adversárias e forçar uma resposta fora de equilíbrio.
Do lado iraniano, a leitura é inequívoca: a pressão americana traduz-se em diplomacia extorsiva. A liderança de Teerã repete que não aceitará “golpes simbólicos” para preservar a face da Casa Branca. A posição oficial é dura — qualquer ataque limitado poderá merecer uma resposta total — uma postura que reduz os espaços de manobra diplomática e eleva o risco de escalada. Em linguagem de estratégia, o Irã prefere manter credibilidade de dissuasão a conceder saídas honoráveis ao adversário.
Importante, e frequentemente subestimado, é o papel do chamado bloco eurasiático. A cooperação trilateral entre Irã, Rússia e China ganhou substância prática nas manobras “Maritime Security Belt 2026”, conduzidas entre janeiro e fevereiro. Essas ações consolidaram coordenação naval e capacidades de segurança marítima no Oceano Índico e no Golfo, com intercâmbio em radar, guerra eletrônica e inteligência.
Moscou, ainda condicionada pelo foco ucraniano, tem interesse estratégico claro: um colapso iraniano abriria uma janela para pressão ocidental adicional nas suas fronteiras meridionais. Pequim, por sua vez, opera com prudência calculada — um Irã enfraquecido significaria vulnerabilidades maiores para a cadeia energética chinesa. Assim, a arquitetura de apoio russo-chinesa representa um alicerce que complica qualquer operação punitiva unilateral.
Contrariando leituras simplistas, os Estados do Golfo — em particular Arábia Saudita, Qatar e Emirados — mostram relutância em entrar num conflito direto. Riad, guiada pela lógica da estabilidade econômica, equilibra a relação com Washington e o crescente portfólio tecnológico e industrial adquirido em acordos bilionários, que incluem investimentos e cooperações em defesa, tecnologia e energia nuclear civil. Em linhas práticas, os sistemas THAAD e Patriot desdobrados no Golfo têm perfil eminentemente defensivo; relatos oficiais negam autorização de uso de bases ou espaço aéreo para operações ofensivas contra o Irã.
Do outro lado do tabuleiro, Israel pressiona por uma ação decisiva. O governo de Benjamin Netanyahu considera a presente conjuntura uma oportunidade para restaurar deterrência por meio de medidas contundentes. Nos corredores de poder americano, porém, o presidente enfrenta dilemas: custos políticos internos, o perigo de uma guerra regional ampliada e a complexidade de alianças dissonantes.
O cenário que se desenha é, portanto, de alta tensão e interdependência: uma demonstração militar que visa não apenas Teerã, mas também a audiência global; uma resposta iraniana que promete severidade; e uma sombra de coordenação eurasiática que transforma um possível confronto local em peça de tectônica de poder continental. Em termos práticos, isso significa risco acentuado para rotas marítimas estratégicas, volatilidade nos mercados energéticos e um redesenho de fronteiras de influência que será sentido muito além do Golfo.
Para os governos e operadores internacionais, o imperativo é claro: distinguir entre espetáculo de intimidação e capacidades reais, preservar canais de comunicação para evitar erros de cálculo e trabalhar, discretamente, para recompor margens de negociação — antes que o movimento decisivo no tabuleiro produza consequências irreversíveis.






















