Por Marco Severini — Em tom calculado e sem concessões, o Irã reafirmou que não renunciará ao programa nuclear de enriquecimento do urânio no âmbito das negociações com os Estados Unidos, mesmo diante de um cenário de crescente pressão militar e econômica. A declaração, assinada pelo ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi, inscreve-se numa lógica de Realpolitik: Teerã procura preservar um ativo estratégico enquanto abre espaço para garantias que aliviem o peso das sanções.
Os recentes contactos em Omã foram descritos por ambas as partes como positivos e com vontade de prosseguir o diálogo. Ainda assim, Araghchi sublinhou que a suspensão do enriquecimento não figura “no cardápio” das negociações porque se trata de um “direito inalienável” da República Islâmica. Em termos diplomáticos, trata-se de proteger um peão central no tabuleiro estratégico do país — um movimento que diferenças margens de manobra na arquitetura regional.
Araghchi foi enfático: o Irã não cederá à exigência reiterada de Donald Trump para renunciar ao enriquecimento do urânio, “mesmo que nos seja imposta uma guerra”. Ao mesmo tempo, o chanceler deixou a porta entreaberta para medidas de construção de confiança sobre o programa nuclear, condicionadas à revogação das sanções internacionais que hoje asfixiam a economia iraniana. É um jogo de barganha típico: concessões técnicas em troca de alívio econômico e político.
Araghchi manifestou dúvidas explícitas sobre a seriedade norte-americana em levar adiante negociações substantivas, citando medidas recentes de Washington — como a autorização assinada por Trump para impor tarifas de até 25% a países que mantenham comércio com o Irã — como sinais contraditórios que minam a confiança necessária para avanços duradouros. Em linguagem diplomática, Teerã afirmará que avaliará todos os sinais antes de decidir se continua a negociação.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de uma tectônica de poder em que cada ação econômica e militar recalibra as possibilidades de acordo. A questão central não é apenas técnica — níveis de enriquecimento e verificação — mas político: quem ganha e quem perde legitimidade no momento em que se redesenha, ainda que parcialmente, as fronteiras invisíveis da influência regional.
Para observadores prudentes, a posição iraniana representa uma tentativa de transformar um ativo sensível em moeda de negociação, sem ceder ao despontar de uma crise aberta. É um movimento que exige interlocutores capazes de oferecer garantias verificáveis e sustentáveis — algo que, no curto prazo, permanece incerto. No tabuleiro diplomático, cada gesto de boa vontade terá de ser acompanhado por sinais concretos que restauram a confiança mútua e reconstroem os alicerces frágeis da diplomacia.
Teerã reconfirma disposição para diálogo, mas fixa limites claros sobre o enriquecimento do urânio. O avanço dependerá da capacidade dos Estados Unidos de traduzir propostas em ações credíveis, sobretudo na suspensão ou abrandamento das sanções que hoje condicionam a política econômica iraniana.





















