Marco Severini — Espresso Italia
Em um movimento que merece leitura atenta no tabuleiro das relações internacionais, a comunidade judaica do Irã veio a público para condenar com veemência os recentes ataques atribuídos a forças dos Estados Unidos e de Israel contra alvos em Teerã. A declaração não é apenas um gesto comunitário: representa um sinal político relevante sobre os alicerces frágeis da diplomacia interna e regional.
Os representantes das diversas minorias religiosas presentes no país — da comunidade judaica aos cristãos, passando por sunitas, armênios, assírios e zoroastrianos — reiteraram, em notas públicas, a preferência fundamental por soluções diplomáticas diante de qualquer crise. Essa postura foi expressa de forma clara e uniforme: a confrontação militar agrava tensões e mina canais de convivência que, historicamente, permitiram a existência de comunidades religiosas sob a soberania iraniana.
A Constituição iraniana, recordam os líderes das minorias, garante proteção e representação para diversas fés — sinagogas, igrejas e templos funcionam abertamente e a prática religiosa é permitida, desde que compatível com as leis nacionais. Numericamente, os xiitas correspondem a cerca de 90% da população religiosa, os sunitas a aproximadamente 6% e o restante se divide entre outras crenças. Vale enfatizar que o Irã abriga a comunidade judaica mais numerosa da região do Oriente Médio, fora do Estado israelense.
Younes Hamami Lalehzar, líder religioso da comunidade judaica iraniana, proferiu uma condenação firme aos bombardeios que atingiram alvos no país. Em termos lapidares, classificou as ações como “um ato de traição da confiança” e pediu a suspensão imediata do ataque de nervos geopolítico: busca-se a preservação da vida civil, do patrimônio religioso e da harmonia social.
Os incidentes ocorridos na véspera da celebração de Purim — festa que tem forte carga simbólica para o mundo judaico — adicionam uma camada de sensibilidade ao episódio. A escolha temporal intensifica as repercussões políticas e culturais, e funciona como uma jogada que altera a percepção pública sobre a legitimidade das ações militares.
Do ponto de vista estratégico, a posição das minorias revela um cálculo de estabilidade: ser, antes de tudo, cidadão iraniano com direitos e deveres é a condição essencial posta pelas lideranças comunitárias. Essa prioridade civil é, nas palavras de observadores, um movimento preventivo para evitar que choques externos redesenhem fronteiras invisíveis dentro do país e desfaçam os frágiles acordos de convivência interconfessional.
Em termos práticos, as autoridades das comunidades têm pedido a abertura de canais multilaterais e a mediação de interlocutores que possam reduzir a escalada. A mensagem é clara: qualquer rota que privilegie a diplomacia e o diálogo reduz o risco de que o confronto externo se traduza em fricções internas, com impacto duradouro sobre minorias religiosas e a coesão do Estado.
Num tabuleiro onde cada movimento repercute em cadeias de apoio e alianças, é imperativo que as potências externas avaliem não apenas ganhos táticos, mas também o custo estratégico de enfraquecer os alicerces da convivência nacional. A voz da minoria judaica iraniana é, neste contexto, um apelo pragmático e ético: preservar canais de diálogo é preservar a estrutura mínima que permite ao Irã — e à região — atravessar crises sem colapsos sectários.
Conclui-se que, para além das manchetes instantâneas, há um jogo de alta diplomacia em curso. Ignorar ou subestimar as posições das minorias é correr o risco de mover peças que, mais adiante, tornarão o tabuleiro mais instável e imprevisível.





















