Por Marco Severini — Em Genebra teve início um novo ciclo de conversações indiretas entre o Irã e os EUA sobre o programa nuclear iraniano, num momento em que a tensão geopolítica sobre o Golfo e o estreito de Hormuz ganha também uma dimensão militar e de alianças. A delegação norte-americana, antes de sentar-se às mesas de interlocução, encontrou-se com o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, e com o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã, em um gesto que busca criar canais de garantia técnico-diplomática para as negociações.
De Teerã, fontes oficiais destacaram que a delegação iraniana já havia mantido encontros com Grossi e com o chanceler omanita na véspera, indicando uma simetria protocolar que tenta reduzir assimetrias de informação e garantir que as conversações sejam conduzidas com respaldo técnico. A imprensa israelense Haaretz, citando um funcionário iraniano anônimo que conversou com a Reuters, assinalou que a eficácia das conversas em Genebra dependerá de uma disposição americana de evitar exigências consideradas irrealistas. Segundo essa mesma fonte, o Irã comparece à mesa com propostas “genuínas e construtivas”.
No plano retórico, o líder supremo iraniano, Ayatollah Ali Khamenei, respondeu às reiteradas ameaças formuladas pelo presidente dos Estados Unidos, afirmando que a superpotência militar exibida pelo governo americano poderia sofrer um golpe que a deixaria imobilizada. À televisão estatal, Khamenei sustentou que, embora navios de guerra sejam perigosos, existem armas iranianas capazes de afundar essas embarcações. Citou ainda o fracasso histórico, segundo ele, de derrubar a República Islâmica em quatro décadas — um lembrete de memória política que serve tanto para consumo interno quanto como sinal externo de resiliência.
Paralelamente ao diálogo diplomático, Moscou, Pequim e Teerã mobilizaram unidades navais para participar das manobras conjuntas anunciadas para a região. Nikolai Patrushev, conselheiro do presidente russo, confirmou a presença de embarcações russas, chinesas e iranianas nos exercícios da chamada “Cintura de Segurança Marítima 2026”, que se realizam na parte norte do Oceano Índico e no estreito de Hormuz. A imprensa iraniana já havia indicado que a Marinha do Irã e unidades do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica integrarão a operação, que existe desde 2019 e tem por objetivo ostensivo o aperfeiçoamento da segurança marítima.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de dois movimentos distintos no mesmo tabuleiro: de um lado, a diplomacia técnica busca réguas e compassi para calibrar vetos, inspeções e alívios de sanções; de outro, a exibição naval projeta um eixo de influência que pretende compor imposições fáticas sobre as linhas de comunicação marítima. Em termos de Realpolitik, ambos os vetores — conversação e demonstração de força — são peças de um mesmo jogo de restrição e de credibilidade.
A mensagem iraniana é dupla e calculada: Tentar obter concessões e alívio das sanções mostrando, ao mesmo tempo, que possui meios de coerção capazes de transformar qualquer escalada em custo real para as rotas internacionais. Para interlocutores ocidentais, a chave em Genebra será a capacidade de formular propostas que possam ser verificadas e que julguem aceitáveis pelo aparato político de Teerã, sem cair em demandas que provoquem um esgarçamento imediato do diálogo.
Em suma, as negociações em Genebra devem ser entendidas como um movimento delicado sobre um tabuleiro de xadrez multilayer: cada reunião técnica, cada encontro com a AIEA, e cada exercício naval ao largo de Hormuz redesenham, mesmo que timidamente, os alicerces de uma diplomacia em que estabilidade e coerção caminham lado a lado.






















