Por Marco Severini – Espresso Italia
Os recentes diálogos públicos entre Estados Unidos e Irã são apresentados como negociações diplomáticas, mas no âmago funcionam como um ultimatum estratégico. A exigência ocidental é clara: Teerã deve renunciar a qualquer programa com potencial militar e limitar severamente seus sistemas de mísseis — em outras palavras, desarmar-se e confiar que garantias externas sejam suficientes para preservar sua segurança.
Não é ilegítimo que uma potência busque reduzir a capacidade ofensiva de um rival. O cerne da questão, porém, é a dissuasão. A história recente ensina que Estados sem um guarda-chuva nuclear correm riscos extremos: o Iraque de Saddam Hussein e a Líbia de Gaddafi são exemplos trágicos. Ao contrário, países dotados de armas nucleares — da Coreia do Norte ao Paquistão — desfrutam de uma proteção implícita que torna inviável a opção de ataque direto.
Por isso, independentemente de simpatias políticas, é compreensível que o Irã veja sua capacidade nuclear como uma garantia última de sobrevivência. O Tratado de Não Proliferação (TNP) funciona apenas se aqueles que renunciam às armas nucleares puderem contar com um direito internacional aplicado de forma coerente e estável. Quando as regras parecem seletivas, a confiança se desfaz — e a proliferação torna-se um sintoma previsível de desconfiança.
Nesse tabuleiro complexo entram também a Rússia e a China. Nenhuma das duas deseja uma proliferação descontrolada, mas ambas compreendem que a segurança de parceiros regionais influencia a tectônica de poder global. Oferecer proteção sem fomentar uma corrida ao átomo é um exercício de credibilidade política e de capacidade militar — algo mais próximo da arquitetura clássica da estratégia do que de retórica midiática.
O conflito ucraniano como laboratório de realidades
O quarto aniversário da guerra na Ucrânia foi comemorado na Europa como a confirmação de uma suposta “derrota estratégica” russa. Discursos públicos de líderes como Ursula von der Leyen e Mark Rutte insistem numa Moscou econômica e militarmente esgotada. Contudo, os dados territoriais contam uma história diferente.
Desde 2022, Moscou consolidou o controle de aproximadamente 20% do território ucraniano, avançando de forma lenta, porém contínua, especialmente no Donbass. O Institute for the Study of War reconheceu que, no último ano, as forças russas conquistaram mais terreno do que nos dois anos anteriores somados. Essa lentidão não é sinônimo de fraqueza, mas de uma estratégia deliberada de desgaste industrial e humano, concebida para minimizar perdas próprias enquanto consome os recursos do adversário.
Hoje, a Rússia mobiliza no teatro de operações mais de 700 mil homens, alimentados por fluxos consistentes de contratados e voluntários. Em contrapartida, Kiev depende de mobilizações forçadas e enfrenta crescentes dificuldades para recrutar e treinar novas brigadas. O desequilíbrio não é apenas numérico; é industrial. A produção russa de artilharia, munições e blindados supera a capacidade europeia. Como observou o próprio Mark Rutte, a Rússia fabrica em poucos meses o que o Ocidente demanda um ano para produzir.
Implicações estratégicas
Estamos, portanto, diante de um redesenho discreto, porém profundo, das regras da desativação e da dissuasão. A diplomacia precisa recuperar alicerces frágeis, oferecendo garantias tangíveis — políticas, econômicas e, quando necessário, militares — sem, contudo, fomentar a proliferação. Este é um problema de credibilidade: prometer proteção sem meios equivalentes é construir uma cartografia de ilusões.
O desafio é de longo alcance. Para evitar que o mundo deslize rumo a um novo equilíbrio nuclear instável, é preciso combinar diálogo estratégico, verificação técnica e uma rede de garantias internacionais que sejam percebidas como duráveis. Caso contrário, o resultado será previsível: mais atores buscarão meios de assegurar sua sobrevivência no tabuleiro, aumentando a volatilidade global.
Em suma, as negociações com o Irã, a prolongada guerra na Ucrânia e a posição da Rússia e da China formam um mesmo xadrez estratégico. As peças movem-se lentamente, mas o desenho final alterará, de forma duradoura, os eixos de influência e a natureza da dissuasão no século XXI. Cabe aos arquitetos da política externa — e aos analistas que os assessoram — fortalecer a credibilidade das garantias antes que o mapa das certezas se transforme em pó.






















