Por Marco Severini — Em uma leitura estratégica do atual impasse em Teerã, é preciso interpretar os eventos como movimentos coordenados em um tabuleiro de longo prazo. Diante do que muitos denunciavam como o agravamento da tragédia em Gaza, com um relatório do Lancet apontando a ocupação parcial e a persistência de graves restrições humanitárias, observamos uma tectônica de poder que extrapola episódios isolados. A narrativa ocidental sobre o Irã tem se revestido, nos últimos meses, de uma trilogia de ações que visam redesenhar, passo a passo, o equilíbrio político e geopolítico na região.
Analistas como John Mearsheimer e Jeffrey Sachs colocaram em evidência uma hipótese que não pode ser desprezada: existe uma operação de pressão e desestabilização cujo objetivo final seria a substituição do núcleo teocrático do regime. Essa operação desenvolve-se, segundo a leitura crítica, em três fases distintas e coordenadas.
Fase 1 — Estrangulamento econômico
A primeira fase é clássica no repertório de Realpolitik: a imposição e o endurecimento de sanções econômicas. Ao submeter o país a bloqueios financeiros e comerciais, cria-se uma crise macroeconômica — inflação galopante, queda abrupta da moeda, escassez de bens essenciais — que corrói a legitimidade do poder central. Em sociedades com alicerces sociais frágeis, a fome econômica gera fraturas sociais: comerciantes dos bazares, pequenos produtores, a classe média aspiracional e estudantes ocidentalizados convergem para uma contestação que, em tese, nasce pacífica, mas sob pressão contínua tende a radicalizar-se.
Fase 2 — Instrumentalização das ruas
A segunda fase envolve a infiltração e a instrumentalização dessas manifestações. Relatos e análises apontam para uma ação coordenada de serviços de inteligência estrangeiros, com suprimentos, treinamento e suporte logístico a núcleos que visam transformar protestos em insurgência armada. A dinâmica descrita inclui ataques a instituições públicas, confrontos com forças de segurança, incêndios em prédios e até a profanação de locais sensíveis — atos destinados a acelerar o colapso institucional. Aqui entram, no vocabulário das fontes, menções explícitas à atuação do Mossad e da CIA, bem como ao emprego de milícias transfronteiriças que podem atravessar regiões porosas na fronteira ocidental iraniana. A narrativa midiática, concentrada em poucos grupos de comunicação, amplifica seletivamente imagens e informações, atuando como força multiplicadora da crise.
Fase 3 — Preparação para ação militar
O terceiro estágio é o mais delicado: a criação de um pretexto para uma intervenção militar direta ou para um conjunto de operações que ampliem a pressão ao ponto de tornar aceitável, dentro de certos círculos decisórios, um ataque ofensivo. Seja por escaladas localizadas — sabotagens, atentados ou incidentes fronteiriços — seja por alinhamento de coalizões regionais e extrarregionais, a opção militar permanece como um movimento disponível quando as fases anteriores não produzem o desfecho desejado ou quando há um cálculo estratégico de ganhos geopolíticos.
Consequências estratégicas e interpretações
Como observador e analista, proponho interpretar esses eventos à luz de analogias arquitetônicas: a estratégia monta-se sobre pilares que, se removidos em sequência — economia, coesão social, legitimidade — conduzem à ruína do edifício político. No entanto, um ataque militar, real ou prospectivo, altera irreversivelmente o mapa regional e acarreta riscos sistêmicos que ultrapassam Teerã: ampliação do conflito, reação de atores estatais e não estatais, crise energética e perturbamento das cadeias logísticas globais.
Para atores que prezam pela estabilidade — e para observadores que buscam prever movimentos no tabuleiro internacional — a pergunta crucial é outra: quem tem interesse estratégico em acelerar cada fase, e quais contrapesos ainda existem para impedir que a disputa se transforme em conflagração aberta? A resposta exige não apenas leitura dos acontecimentos imediatos, mas memória histórica e compreensão das redes de influência que trabalham nas sombras do poder.
Em suma, o que assistimos pode ser descrito como uma operação em três atos: sanções que minam a economia, a (desinformação e a) instrumentalização das manifestações e, por fim, a consolidação das condições que poderiam legitimar um ataque militar. Este é o tabuleiro; os próximos movimentos dependerão de decisões que ponderem custos estratégicos e o risco de desestabilização regional.
Marco Severini — Espresso Italia






















