Em um movimento que redesenha fragilmente o equilíbrio interno do regime, o Irã intensificou uma onda de prisões dirigida não apenas a ativistas da sociedade civil, mas também a membros do próprio campo oficialista: os reformistas. A operação recente, conduzida pelo Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), prendeu em sua casa a líder do Front Reformista, Azar Mansouri, e outras figuras políticas de relevo.
Entre os detidos estão o porta-voz do agrupamento, Javad Emam, o ex-vice-ministro das Relações Exteriores Mohsen Aminzadeh e o veterano político Ebrahim Asgharzadeh. Esses nomes representam uma camada do sistema que historicamente transitou entre contenção e contestação, e cuja prisão sinaliza uma operação mais ampla para eliminar vozes consideradas pouco fiéis ao núcleo do poder.
O Front Reformista, guarda-chuva de 27 formações políticas, havia apoiado nas urnas o presidente Massoud Pezeshkian durante a campanha de 2024. No entanto, com o irromper das protestos no fim de dezembro — impulsionados por uma crise econômica profunda — e as manifestações massivas de 8 e 9 de janeiro, a mesma força política se distanciou do Executivo, gerando uma tensão que agora se converte em repressão.
O episódio ocorre paralelo ao bloqueio quase total das comunicações por internet, e a justificativa oficial para a repressão permanece pouco clara. Organizações de direitos humanos estimam que o número de vítimas possa chegar a 20 mil, um número que exige atenção e que expõe os alicerces frágeis da diplomacia interna do regime.
Nos dias anteriores, outros quatro ativistas de direitos humanos foram detidos por assinar uma carta aberta — subscrita por intelectuais e cineastas — que pedia um referendo livre e transparente e instava a Guia Suprema a se afastar. Entre esses prisioneiros estão Vida Rabbani, Abdollah Momeni, Ghorban Behzadian-Nejad e Mehdi Mahmoudian, este último co-roteirista do filme premiado de Jafar Panahi.
O cineasta Jafar Panahi, agora nos Estados Unidos para promover seu filme indicado ao Oscar, e o diretor Mohammad Rasoulof — refugiado na Europa — figuram entre os signatários que desafiaram as linhas vermelhas do regime. Também consta entre os apoiadores a laureada de Direitos Humanos e Prêmio Nobel Narges Mohammadi, recentemente sentenciada a mais de sete anos de prisão.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento calculado: ao silenciar as críticas internas sobre a gestão das manifestações e a atuação dos serviços de segurança, o poder procura recompor seu tabuleiro de influência e prevenir fissuras que poderiam alargar-se como rachaduras numa antiga arquitetura política.
Como analista, observo que essa maré de detenções cumpre duas funções simultâneas — repressiva e preventiva — e que terá repercussões para as relações externas do Irã, inclusive na retórica de abertura diplomática em relação aos Estados Unidos. No tabuleiro da geopolítica, cada peça retirada do jogo interno altera trajetórias e recalibra alianças: a estabilidade regional dependerá, nos próximos meses, de como essas peças serão recolocadas.






















