Por Marco Severini — Em um momento de crescente tensão que redesenha linhas de influência no Médio Oriente, o Irã atravessa uma fase de instabilidade interna e de manobras externas. Organizações não governamentais já reportaram — segundo comunicados públicos — mais de 500 mortos nas manifestações antigovernamentais, um número que traça o contorno humano e político da crise.
Na arena internacional, a resposta foi imediata e multifacetada. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, declarou a plena «contrariedade às interferências estrangeiras» no Irã e pediu que o país retorne a uma fase de paz. A posição de Pequim, pronunciada após afirmações do presidente norte-americano sobre a avaliação de “opções muito concretas” por parte dos militares dos EUA, visa, por um lado, proteger o princípio da não intervenção e, por outro, preservar a estabilidade regional necessária aos seus interesses estratégicos e económicos.
Do outro lado do tabuleiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou a bordo do Air Force One que “os líderes iranianos ligaram. Querem negociar; uma reunião está a ser organizada”. O anúncio, carregado de ambivalência, insere-se numa lógica de pressão que combina oferta de diálogo com a ameaça implícita de medidas militares — um movimento clássico de diplomacia coercitiva.
Em Teerã, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi, respondeu com uma fórmula dupla: o país está «pronto para a guerra e para o diálogo». Em encontro com diplomatas estrangeiros, Araghchi sugeriu que as manifestações, que descreveu como tendo-se tornado “violentas e sanguinolentas”, foram instrumentalizadas como pretexto para uma eventual intervenção externa — argumento destinado a deslegitimar a intervenção externa e consolidar a narrativa de soberania ameaçada.
Segundo Araghchi, a situação interna — ainda que marcada por episódios de violência no fim de semana — encontra-se agora “sob controle total”. Foi também anunciado que a conectividade à Internet será progressivamente restabelecida, incluindo o restauro do serviço para embaixadas e ministérios, como parte de um esforço coordenado entre o governo e as autoridades de segurança para normalizar a atividade administrativa e diplomática.
O conjunto destas declarações revela a tectônica de poder que se move sob a superfície: uma resistência doméstica com custos humanos elevados, uma réplica diplomática de Pequim em defesa da inviolabilidade dos Estados, e um Washington que alterna sinalizações de diálogo com menções a opções militares. É um jogo com múltiplas camadas — onde cada palavra, cada telefonema e cada corte de rede é um movimento no tabuleiro. A estabilidade regional depende agora da capacidade dos atores de transformar posturas de força em canais reais de negociação, evitando assim um escalonamento que ninguém deseja.






















