Por Marco Severini – Em uma palestra no Guarini Institute da John Cabot University, Farian Sabahi ofereceu uma leitura metódica e estratégica do contemporâneo processo iraniano: um estado que articula história, ideologia e uma arquitetura militar robusta para operar simultaneamente pela via da diplomacia e pela da dissuasão. Introduzida pelo professor Federigo Argentieri e coordenada por Martina Atanasova, da International Relations Society, a aula chegou num momento de tensão prática — com exercícios iranianos no Estreito de Hormuz e uma nova rodada de pressão entre Teerã, Washington e Tel Aviv.
Sabahi recusa a visão do Irã como um enigma caótico. Para ela, o país funciona como um sistema coerente que equilibra três eixos: conflito, diplomacia e mudança interna. Esses vetores não são mutuamente excludentes; ao contrário, compõem uma mesma estratégia em camadas, onde o uso demonstrativo da força no mar complementa esforços de negociação nos gabinetes e, simultaneamente, molda o espaço político doméstico.
Os contatos indiretos em Genebra — mediadas pelo Omã — trouxeram de volta ao centro a temática nuclear e a discussão sobre sanções. A agenda, segundo Sabahi, é conhecida: limites ao programa nuclear, regimes de inspeção, gestão das reservas de urânio e um pacote de alívio econômico condicionado a verificações. O Irã insiste em uma troca clara: maior acesso a inspetores internacionais em troca de benefícios econômicos tangíveis. Entre as exigências de Teerã figura também a restituição de ativos congelados desde a crise dos reféns de 1979–81.
O elemento da credibilidade dos acordos é, nas palavras da pesquisadora, um ponto nodal. A ruptura unilateral do Acordo Nuclear em 2018 pela administração Trump não é apenas um episódio diplomático; é um divisor de águas político que mostrou como sanções secundárias podem paralisar a ação europeia e minar a confiança. Esse histórico torna qualquer novo pacto vulnerável às flutuações políticas externas, reduzindo sua eficácia como ancoradouro de estabilidade.
Do ponto de vista interno, as sanções se traduzem em variáveis sociais imediatas: inflação elevada, desvalorização do rial e perda do poder de compra. Sabahi sintetiza com severidade: “não se faz uma revolução com a carteira vazia”. A compressão econômica alimenta mercados paralelos e distorções que, a curto prazo, comprimem o espaço de atuação das correntes reformistas. Nos últimos meses, observa a analista, assistimos a prisões e a um processo de isolamento das elites moderadas — um cenário que reduz a capacidade de mudança por via institucional.
Na geopolítica regional, o protagonismo dos Pasdaran (Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica) é um fator que amplifica o receio dos vizinhos do Golfo. As manobras navais, as comunicações públicas e as eventuais interdições temporárias de trechos do Estreito cumprem função dupla: são demonstração de força e instrumento de pressão negociadora. Para os estados do Golfo, essa combinação representa um redesenho de fronteiras de influência, ainda que invisível, exigindo recalibração nas alianças e nas posturas de segurança.
Além disso, a condição das mulheres e os direitos civis aparecem como termômetro do quadro doméstico. Autora de obras como “Noi donne di Teheran”, Sabahi recorda que a repressão às vozes reformistas incide diretamente sobre as liberdades individuais, tornando mais difícil qualquer abertura que não seja acompanhada por garantias sólidas de segurança econômica e política.
Em suma, o Irã que emerge da análise de Sabahi não é uma peça isolada, mas um ator que movimenta-se em um tabuleiro multidimensional: diplomacia, dissuasão e política interna numa única estratégia. O desafio para a estabilidade regional passa por restaurar a credibilidade dos acordos, reduzir o custo humano das sanções e reconhecer que a tectônica de poder na região continuará a ser definida tanto por exercícios navais quanto por decisões tomadas à mesa de negociação.
Como diplomata da informação, concluo que qualquer solução duradoura exigirá movimentos calculados — um xeque-mate que não dependa de gestos unilaterais, mas de alicerces negociais capazes de resistir às oscilações políticas externas e aos ventos internos que sopram sobre Teerã.






















