Por Marco Severini — À luz dos recentes ataques aéreos reconhecidos como parte da chamada Guerra dos 12 dias em junho, o Irã preservou grande parte do seu arsenal estratégico. Relatórios de inteligência e análises abertas indicam que Teerã continua a dispor de capacidades significativas que transformam sua retórica em risco concreto para forças e interesses norte-americanos na região.
Fontes citadas pelo Wall Street Journal estimam que o Irã detenha cerca de 2.000 mísseis balísticos de médio alcance, armamento suficiente para atingir Israel e projetar poder em corredores críticos do Oriente Médio. Além disso, existem estoques substanciais de mísseis de curto alcance, armamentos antinavio, drones e plataformas navais equipadas com lançadores de torpedos — um conjunto que representa uma ameaça direta tanto às bases americanas quanto às embarcações que transitam pelo Estreito de Hormuz.
“O Irã pode ser afetado em alguns domínios, mas sua robusta força míssil continua letal”, afirmou Behnam Ben Taleblu, diretor do programa Irã na Foundation for Defense of Democracies, ao comentar declarações recentes feitas no Congresso por Marco Rubio. A frase sintetiza um princípio clássico de geoestratégia: dano assimétrico e persistente compensa fragilidades convencionais.
Em resposta ao que Washington identifica como risco ampliado, a administração norte-americana reposicionou ativos navais e aéreos na região, incluindo a presença do porta-aviões USS Abraham Lincoln e esquadrões adicionais de aeronaves de combate. Também houve reforço de sistemas de defesa antiaérea e antimíssil, como os Patriot e o THAAD, destinados a constituir camadas defensivas contra eventuais lançamentos.
No entanto, a proteção exigida no provável teatro de operações é substancialmente mais extensa do que aquela oferecida aos aliados durante junho. Conforme estudo do Council on Foreign Relations, os Estados Unidos teriam a defesa de cerca de duas dezenas de bases terrestres declaradas, do território da Turquia ao Kuwait, com aproximadamente 40 mil militares sob responsabilidade direta de proteção. Esse é um tabuleiro geográfico vasto, em que cada peça defensiva é exigida em múltiplos flancos.
Analistas militares consultados defendem que, em um conflito escalado, o Irã tenderia a priorizar ataques contra alvos estadunidenses mais próximos de suas costas, tirando partido de sua ampla dotação de mísseis de curto alcance e de sistemas menos custosos, como drones e ataques marítimos. Países do Golfo, estreitos aliados dos EUA, figuram igualmente como potenciais alvos devido à sua proximidade e papel logístico.
“O Irã possui mísseis de curto alcance em volume suficiente para atacar bases americanas no Golfo em ritmo que poderia submeter a defesa dos EUA e de seus aliados a severas provas”, avaliou Daniel Shapiro, ex-vice-assistente do secretário de Defesa para o Oriente Médio. Farzin Nadimi, do Washington Institute for Near East Policy, acrescentou que “uma parte significativa desses mísseis pode alcançar seu objetivo”.
Do ponto de vista estratégico, estamos diante de uma tectônica de poder que não se resolve apenas com bombardeios pontuais. Como num lance decisivo em um tabuleiro de xadrez, a capacidade de retaliar ou dissuadir depende tanto da proteção das posições quanto da ameaça persistente que o adversário conserva. O arsenal iraniano, disperso entre mísseis, drones e plataformas navais, constitui um mecanismo de pressão que altera a arquitetura clássica de equilíbrio no Oriente Médio.
Para os formuladores de políticas, a lição é dupla: é necessário combinar defesas passivas e ativas — em sistemas e alianças — com estratégias de redução de risco que limitem a escalada. Em termos práticos, isso significa não apenas reforçar sistemas como Patriot e THAAD, mas também aperfeiçoar inteligência, logística e coordenação com parceiros regionais, preservando, ao mesmo tempo, canais diplomáticos capazes de reduzir a probabilidade de um movimento irreversível no tabuleiro.
Enquanto as peças não se movem de forma definitiva, o Irã mantém uma capacidade de coerção que continuará a moldar decisões estratégicas de Washington e de seus aliados. A arquitetura de segurança da região permanece em alerta — e a estabilidade dependerá de decisões cautelosas e bem coordenadas, que saibam ver além das jogadas imediatas para a configuração do xadrez geopolítico de amanhã.






















