Por Marco Severini — Espresso Italia
O terceiro round de negociações mediadas por Omã, realizado em Genebra em 26 de fevereiro de 2026, encerrou-se oficialmente com relatos de “bons progressos”, segundo comunicado do ministro das Relações Exteriores omanita, Badr bin Hamad Al-Busaidi. Ainda assim, nos corredores diplomáticos ecoou uma nota distinta: as delegações americanas, representadas por Jared Kushner e Steve Witkoff, teriam abandonado a mesa “delusas” diante das propostas iranianas, conforme apurado por fontes como Axios.
Trata-se de um movimento que revela a tectônica de poder em curso: há, de um lado, sinais de proximidade técnica entre as partes; do outro, persistem discrepâncias substanciais sobre termos nucleares e garantias de segurança. O Irã procura aliviar o peso das sanções e preservar a capacidade de enriquecimento de urânio; os Estados Unidos exigem concessões que, na visão de Washington, removam a capacidade de uma ruptura nuclear.
Fontes ocidentais descreveram cinco pontos considerados não negociáveis pela delegação americana: a) a destruição de instalações nucleares específicas, entre elas Fordow, Natanz e Isfahan; b) o envio para os EUA de todo o urânio enriquecido atualmente em território iraniano; c) a rejeição de cláusulas de decaimento temporal — ou seja, um acordo sem prazo de validade; d) a suspensão do enriquecimento nuclear, permitindo apenas o reator de pesquisa em Teerã; e) a redução antecipada e mínima das sanções. Complementarmente, mencionou-se a proposta de um pacto de não-agressão.
Do lado iraniano, representantes como o ministro das Relações Exteriores Araghchi (Araghchi) reiteraram que Teerã busca recuperar margem econômica mediante alívio das sanções, ao mesmo tempo em que preserva prerrogativas tecnológicas que considera estratégicas. Araghchi confirmou que a próxima etapa técnica ocorrerá em Viena a partir de segunda-feira, 2 de março, indicando que, apesar das frustrações pontuais, canais de diálogo continuam abertos.
Como analista que observa o tabuleiro com lentes de cartógrafo e enxadrista, enxergo esse ciclo como um jogo posicional: cada delegação tenta consolidar avanços sem ceder posições consideradas centrais para sua segurança e credibilidade. A saída dos enviados americanos — real ou simbólica — funciona como um movimento de pressão pública, destinado tanto ao interlocutor quanto a audiências internas nos EUA e na região.
Há riscos claros de escalada: forças proxy na região têm declarado diferentes graus de envolvimento condicional, como lembrou a atual dinâmica entre Teerã e grupos aliados. Contudo, a convocação de novo encontro técnico em Viena sugere que, por ora, prevalece a preferência por resolução mediante diplomacia estruturada, e não por confrontos abertos. O desafio será transformar os “bons progressos” de Genebra em compromissos verificáveis que reduzam, de maneira duradoura, as fraturas estratégicas.
Em termos práticos, os olhos do mundo — e dos estrategistas nas capitais — estarão voltados para Viena: ali se decidirá se as peças avançam de forma coordenada para um acordo ou se o jogo retorna a uma nova fase de contenção e atrito. A política externa, como arquitetura, funda-se em alicerces que, se frágeis, exigem reforço imediato para evitar ruínas futuras; na ausência desse reforço, o risco é o redesenho de fronteiras invisíveis na estabilidade regional.
Resumo: terceiro round em Genebra com “bons progressos” segundo Omã; delegados americanos teriam partido frustrados; novos encontros técnicos começam em Viena em 2 de março. O equilíbrio entre exigências americanas e imperativos iranianos continuará a definir o ritmo das negociações.





















