Por Marco Severini — Em um movimento que lembra uma jogada cautelosa em um tabuleiro de xadrez diplomático, surgiram sinais de avanço nas tratativas indiretas entre o Irã e os Estados Unidos em Genebra. Após três horas de conversas mediadas pelo Omã, o ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, qualificou como “progressos positivos” o encontro com os intermediários Steve Witkoff e Jared Kushner. A administração norte-americana confirmou avanços, embora com formulações mais cautelosas.
Segundo Araghchi, “foi alcançado um entendimento sobre os princípios orientadores gerais de um acordo” e ficou decidido trabalhar em textos que serão trocados antes de uma terceira rodada de negociações. Em termos práticos, tratou-se de um realinhamento inicial: estabelecer alicerces discursivos que permitam traduzir intenções em linguagem jurídica e técnica, o necessário antes de qualquer compromisso vinculante.
O mediador omanita, ministro Badr Al Busaidi, também reportou “bons progressos”, mas ressaltou que “há ainda muito trabalho a fazer” e que as delegações partiram com passos claros a executar antes da próxima reunião. Uma fonte da administração americana relatou ao Axios que “foram feitos progressos, mas ainda há muitos detalhes a discutir” e que os iranianos prometeram apresentar, nas próximas duas semanas, propostas detalhadas para reduzir distâncias persistentes.
Do ponto de vista da Realpolitik, estes encontros funcionam como uma cartografia de intenções: mapear zonas de convergência reduz o risco de equívocos que podem acelerar a escalada. Ainda assim, os protagonistas mantêm discursos de dissuasão. Araghchi reiterou, perante a assembleia de desarmamento da ONU, que o Irã segue um percurso pacífico no domínio da energia nuclear e não busca armas nucleares, qualificando arsenais nucleares como a “maior ameaça à humanidade”.
Ao mesmo tempo, Teerã não deixou de advertir sobre sua capacidade de resposta: “O Irã se defenderá de qualquer ameaça e ação agressiva”, afirmou Araghchi, lembrando que “as consequências de ações temerárias não se limitarão aos limites do país”. O aiatolá Ali Khamenei reforçou o tom ao sugerir que um golpe severo poderia incapacitar o adversário — uma metáfora de força que, no jargão do xadrez estratégico, equivale a uma ameaça de sacrificar peças para manter a integridade do rei.
Há paralelamente um reforço militar tangível na região: a porta-aviões Lincoln já opera no Oceano Índico e a Ford, a maior do mundo, está a caminho. Essas movimentações navais compõem um tabuleiro de poder que pressiona as opções diplomáticas, lembrando que a estabilidade é sustentada por uma combinação de negociação e capacidade de dissuasão.
Em resumo, Genebra produziu um deslocamento relevante — não um acordo. Os “progressos” apontam para uma janela técnica de trabalho e não para uma solução imediata. O risco de conflito não foi eliminado; foi apenas temporariamente deslocado para o campo das negociações. O verdadeiro teste será a tradução dos princípios acordados em textos concretos nas próximas semanas, que poderá reconfigurar, ou reafirmar, a atual tectônica de poder na região.






















