Por Marco Severini, Espresso Italia — Em um movimento tenso e calculado no tabuleiro diplomático, o presidente do Irã, Masud Pezeshkian, anunciou ter autorizado o início de negociações com os Estados Unidos, desde que seja criado um ambiente propício, livre de ameaças e de expectativas irrazoáveis. A declaração, publicada em sua conta na X, ressalta que o diálogo deverá ocorrer ‘no âmbito dos nossos interesses nacionais’.
O anúncio chega em meio a advertências enérgicas das forças militares de Teerã. O chefe de Estado‑Maior iraniano, Abdolrahim Mousavi, afirmou que se os Estados Unidos atacarem, ‘nenhum americano estará a salvo’ e que ‘as chamas da região queimarão a América e seus aliados por dentro’. Mousavi, relatado pela Al Jazeera, declarou ainda que a doutrina defensiva do país foi revista e ‘transformada em ofensiva’, indicando prontidão para uma resposta contundente e sugerindo que qualquer conversa sobre bloqueio naval obriga a ‘rever a geografia’ — uma metáfora estratégica que sublinha as linhas de comunicação e de abastecimento marítimo no Golfo.
No outro lado do tabuleiro, o presidente norte‑americano Donald Trump reiterou seu desejo por um acordo, mas advertiu que, na ausência de entendimento, os EUA agirão, fazendo uma leitura clara de risco e custo. Em declarações desde Mar‑a‑Lago, Trump lembrou o significativo destacamento naval norte‑americano na região, ‘a dois dias’ do Irã, reforçando o caráter iminente e a pressão temporal sobre a mesa de negociação.
Fontes iranianas e agências de imprensa apontam que as conversações sobre o nuclear e a contenção da crise devem ocorrer ‘com grande probabilidade nos próximos dias na Turquia‘. A agência Fars confirmou a possibilidade, depois de relatos iniciais do Axios. A agenda de mediação foi facilitada por contatos diplomáticos recentes: em 30 de janeiro o ministro das Relações Exteriores turco, Hakan Fidan, e o presidente Recep Tayyip Erdogan receberam o então chefe da diplomacia iraniana, Abbas Araghchi, em Ancara, oferecendo‑se para intermediar um diálogo com Washington; Erdogan já havia proposto essa via a Trump em conversa telefônica em 27 de janeiro.
Segundo informações veiculadas pelo Axios, a administração Trump teria sinalizado, por múltiplos canais, disponibilidade para se encontrar e negociar um acordo. Países da região e do entorno — nomeadamente Turquia, Egito e Qatar — estariam mobilizados para organizar um encontro entre o enviado da Casa Branca, Steve Witkoff, e funcionários iranianos em Ancara ainda no final desta semana. Um funcionário envolvido nas tratativas afirmou, laconicamente, ‘estamos fazendo o nosso melhor’.
Do ponto de vista estratégico, tratam‑se de movimentos coordenados sobre um tabuleiro onde cada peça calcula não apenas ganhos imediatos, mas a reconfiguração dos eixos de influência na região. A disposição de Teerã para negociar, condicionada à ausência de coerção, é uma tentativa de consolidar alicerces diplomáticos frágeis sem ceder a pressões que possam ser percebidas como humilhação estratégica. Para Washington, a oferta de diálogo permite testar se a ameaça de força continua sendo um elemento dissuasivo credível ou se a diplomacia ainda pode redesenhar fronteiras invisíveis e reduzir o risco de uma escalada maior.
O próximo passo, caso a reunião em Ancara se confirme, será observar os termos iniciais, a agenda de segurança e a arquitetura de garantias propostas — sinais que definirão se a tectônica de poder regional se estabiliza ou se o confronto seguirá ganhando mobilidade. Em suma: estamos perante um movimento decisivo no tabuleiro; a calma retórica esconde uma tensão que exige prudência e precisão estratégica.





















