Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance tenso no tabuleiro das grandes potências, as conversações entre Irã e EUA estacionaram após o terceiro ciclo de negociações em Genebra, onde o Omã atuou como mediador. O processo, que visa conter riscos atômicos e redesenhar linhas invisíveis de influência no Oriente Médio, encontra-se sobre alicerces delicados da diplomacia.
O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, advertiu que, para se chegar a um acordo, Washington precisa abandonar o que chamou de “exigências excessivas“. Em contato telefônico com o chanceler egípcio Badr Abdelatty, Araghchi sublinhou que o sucesso depende de “seriedade e realismo por parte da outra parte, evitando qualquer erro de cálculo e pedidos desproporcionais”.
Fontes da imprensa norte-americana relatam frustração entre os enviados dos EUA, incluindo Jared Kushner e Witkoff, que se disseram desapontados com os resultados das reuniões, após vazamentos anteriores que haviam sugerido um otimismo cauteloso e declarações de Teerã sobre um “acordo ao alcance”.
Segundo relatos, a delegação americana levou a Genebra demandas claras: o desmantelamento dos principais complexos nucleares iranianos e um pacto que imponha o fim permanente do enriquecimento do urânio. Do lado iraniano, Araghchi descreveu o último ciclo como o “mais intenso” até agora, reconhecendo avanços no engajamento diplomático com Washington, sem, contudo, dissiper o impasse central.
No pano de fundo dessas negociações encontra-se outra narrativa de grande peso político: a afirmação do presidente Donald Trump de que o Irã estaria a caminho de desenvolver um míssil capaz de atingir o território dos EUA. Essa declaração, proferida no discurso sobre o Estado da União, não encontra suporte firme nas avaliações de inteligência norte-americanas, segundo três fontes com acesso aos relatórios.
Relatórios não classificados de 2025 da Defense Intelligence Agency (DIA) indicam que o Irã poderia levar até 2035 para transformar veículos de lançamento espacial em um míssil balístico intercontinental militarmente viável. Em outras palavras, a previsão de uma ameaça iminente à distância continental parece, por ora, exagerada à luz das avaliações técnicas.
Philip Vance, em entrevista ao Washington Post, delineou a incerteza que paira sobre a administração americana: nenhum controle absoluto sobre as próximas decisões do presidente. Vance descreveu como possibilidades tanto ataques militares — para impedir que o Irã adquira uma arma nuclear — quanto uma solução diplomática. Ele afirmou, com convicção realista, que um eventual novo ciclo de ataques não se transformaria em um conflito prolongado de anos, e declarou: “Acredito que todos preferiríamos a opção diplomática.”
Em termos estratégicos, o cenário atual é uma combinação de tectônica de poder e negociações minuciosas: cada exigência de Washington é um lance cujo custo político e técnico deve ser calibrado, enquanto Teerã preserva opções internas e regionais. A mediação omani exige habilidade para evitar que o confronto político evolua em ruptura aberta — um desafio que demanda paciência, precisão e senso de escala.
O impasse em Genebra confirma que o abandono de posições radicais por ambas as partes e um delicado reajuste de expectativas são hoje condição sine qua non para qualquer avanço. Sem tais concessões mutuas, a diplomacia permanecerá no limiar, aguardando movimentos decisivos que possam transformar o equilíbrio de risco em um acordo sustentável.






















