Por Marco Severini – Espresso Italia
Analistas de segurança internacionais vêm descrevendo, com crescente unanimidade, o que pode ser entendido como a nova doutrina operacional do Irã contra os interesses dos Estados Unidos e de Israel: uma guerra de desgaste concebida em fases — a degradação dos sistemas de detecção, a saturação das interceptações com enxames de drones e foguetes baratos, e, por fim, ataques cirúrgicos com mísseis balísticos de maior precisão.
No teatro de operações observado nas últimas semanas, nota-se um padrão metódico. A primeira camada desta estratégia prioriza a acuidade da informação: ataques direcionados a instalações de vigilância e redes de radar, complementados por operações de guerra eletrônica e lançamentos de mísseis de cruzeiro, com o objetivo de reduzir a capacidade de alerta precoce das forças adversárias. Alvos contra infraestrutura estratégica — entre os quais foi reportada a base britânica de Akrotiri, em Chipre, e pontos em território israelense — inserem-se nessa lógica de pressão e erosão contínua.
Em paralelo, o Irã tem procurado criar um ambiente de cálculo desfavorável ao defensor por meio da saturação: vastos contingentes de drones de baixo custo e mísseis de curto e médio alcance são empregados não tanto pela sua precisão absoluta, mas pela capacidade de obrigar o inimigo a consumir recursos caros em interceptação. É a velha relação assimétrica de custo: alvos produzidos com meios relativamente baratos forçam a utilização de interceptores cujo custo por unidade pode atingir milhões de dólares — um desequilíbrio econômico-militar deliberado.
Fontes oficiais dos Guardiões da Revolução (Pasdaran) reivindicaram o disparo de mais de 40 mísseis contra alvos atribuídos aos EUA e a Israel, afirmando ainda ter ‘controle total do Estreito de Ormuz’. Essas declarações devem ser analisadas tanto pelo seu conteúdo operacional quanto por seu valor político e simbólico — movimentos no tabuleiro que visam consolidar posições de barganha e desafiar as linhas de abastecimento e abertura marítima.
O passo seguinte, segundo os analistas, é o emprego de tiro de maior qualidade: após desgastar as camadas de defesa e gerar incerteza nos sistemas de alerta, vêm os ataques com mísseis balísticos e outras munições de precisão, destinados a alvos de maior valor estratégico. Tal sequência — degradar, saturar, punir — reflete um desenho deliberado, não improvisado, e serve tanto a fins militares quanto a objetivos de dissuasão e coerção política.
No campo da geopolítica, esta tática representa um redesenho das fronteiras invisíveis do poder: ao desestabilizar as rotas de reação rápida e ao impor um fardo econômico aos interceptores, o Irã procura reconfigurar a assunção de risco dos seus adversários e ampliar seu espaço de manobra diplomática. É, em termos estratégicos, um movimento que lembra uma manobra de xadrez: não é a peça capturada hoje que decide o jogo, mas a criação de um pólo vantajoso no centro do tabuleiro.
Para Estados Unidos e Israel, o desafio é restaurar a integridade dos alicerces da defesa em condições de custo e tempo que não favoreçam o adversário. Reforços de sistemas de vigilância, maior integração entre intel e capacidades de tiro e ajustes na logística de interceptação são medidas previsíveis. Mas a eficácia dessas medidas dependerá da capacidade de adaptação a uma campanha que combina tecnologia de baixa complexidade com saltos esporádicos de alta letalidade.
Do ponto de vista da estabilidade regional, a tática iraniana amplia a tectônica de poder: pressiona rotas marítimas, testa coesão de alianças e coloca em evidência a fragilidade de um detetive econômico-militar de defesa que não considere a assimetria de custos. Em suma, é uma estratégia que visa alterar a equação de dissuasão sem recorrer exclusivamente à confrontação frontal.
À medida que a situação evolui, acompanha-se não apenas a movimentação de mísseis e drones, mas a reordenação das prioridades políticas e diplomáticas entre os atores. Para os estrategistas, o elemento decisivo será quem conseguirá transformar vantagem operativa temporária em posição duradoura de influência — ou quem, no fim, ficará perdido nas areias movediças de um conflito de atrito.






















