Por Marco Severini — Em um movimento que mistura cortesia diplomática e intimidação estratégica, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que o Irã “está negociando” com Washington, ao mesmo tempo em que reforçou a possibilidade de ação militar caso as conversas não produzam resultados. A declaração, dada em entrevista à Fox News, foi acompanhada de lembranças duras: “a última vez, tivemos de destruir seu programa nuclear porque isso não funcionou”.
Com a frieza característica de quem joga no tabuleiro das grandes potências, Trump disse não poder compartilhar detalhes da estratégia com os aliados do Golfo: “Não podemos revelar o plano aos nossos aliados no Golfo. Se o fizesse, seria quase como revelá-lo a vocês”. O presidente acrescentou que “o plano é que o Irã está dialogando conosco e veremos se conseguimos algo, caso contrário veremos o que acontece”. Em paralelo, mencionou um reforço naval: um grupo de batalha liderado pela porta-aviões USS Abraham Lincoln foi deslocado para águas próximas ao Irã, uma peça relevante na tectônica de poder regional.
Nas redes, o tom foi igualmente estratégico e ambíguo. Trump republicou no Truth Social um vídeo não verificado que afirma mostrar uma fuga desordenada dos Guardiões da Revolução em Teerã, acompanhado por legendas alarmistas — exceto que a autenticidade do material não foi confirmada por fontes independentes. O gesto – republicar conteúdos de procedência duvidosa — funciona como um lance no tabuleiro: amplifica a pressão psicológica sem ancoragem total em provas abiertas.
Do lado iraniano, as altas instâncias de segurança falam de avanços nas negociações com Washington, mas mantêm a guarda alta em relação a cenários militares. As autoridades de Teerã lembram que, se atacado, o país responderá com ataques com mísseis contra bases, embarcações e aliados dos EUA, com menção explícita a Israel como alvo potencial. A presença do grupo de batalha naval americano é vista como um componente condicionante: é ao mesmo tempo aviso e alavanca política.
Em declarações formais, Ali Larijani, chefe do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, afirmou que “contrariamente à histeria fabricada pela mídia, os acordos estruturais para os negócios estão progredindo”. Paralelamente, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian disse, em conversa com o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, que a República Islâmica não busca nem deseja a guerra — e que a diplomacia continua a ser prioridade. Ainda assim, Teerã condiciona qualquer diálogo sobre o nuclear à exclusão de programas de mísseis e capacidades defensivas da pauta.
O quadro, assim, faz lembrar um final de partida em que ambos os jogadores mantêm peças suficientes para dissuadir um avanço decisivo: os elementos militares no terreno e no mar são os alicerces frágeis da diplomacia, enquanto as negociações, se exitosas, redesenham fronteiras invisíveis de influência. Washington aposta num equilíbrio entre pressão e oferta; Teerã tenta preservar sua capacidade de dissuasão sem ceder além do admissível.
Na prática, a situação continuará regida por sinais: observações de movimento naval, comunicados oficiais, e a avaliação — tanto em Teerã quanto em Washington — do custo político e estratégico de um conflito aberto. Enquanto isso, o mundo assiste a um movimento decisivo no tabuleiro do Médio Oriente, cuja resolução definirá não só o futuro imediato do programa nuclear iraniano, mas a estabilidade de um eixo de influência essencial para a ordem regional.





















