Por Marco Severini — Em um movimento que lembra um lance crítico no tabuleiro, o Irã chega a Genebra para o terceiro round de negociações sobre o programa nuclear com os Estados Unidos, enquanto as peças militares e diplomáticas continuam a ser alinhadas em níveis máximos de tensão.
A delegação iraniana, segundo Teerã, é liderada pelo ministro das Relações Exteriores Abbas Araghchi e reúne quadros políticos, econômicos, jurídicos e técnicos. Com mediação do Omã, o encontro em Genebra deve ocorrer hoje entre os enviados de Teerã e a equipe norte-americana, chefiada por Steve Witkoff e pelo assessor presidencial Jared Kushner.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou publicamente estar “otimista” quanto a um desfecho positivo, embora a administração Trump mantenha uma pressão máxima, combinando sanções econômicas e a retórica de possível ação militar. A declaração iraniana surge horas depois do discurso do Estado da União do presidente americano, no qual ele acusou o Irã de desenvolver mísseis capazes de ameaçar bases americanas e aliadas na Europa, além de retomar ambições nucleares.
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, classificou as acusações como “grandes mentiras”. Em termos de alcance balístico, Teerã divulga uma estimativa máxima de 2.000 km; o Congressional Research Service dos Estados Unidos cita até 3.000 km — números que, mesmo assim, ficam aquém da distância para o território continental americano.
O Ocidente sustenta a suspeita de que o Irã busca capacidade atômica com potencial dissuasório contra Israel. Teerã insiste que seu programa é estritamente pacífico, apesar de relatórios sobre enriquecimento de urânio além do nível exigido para fins civis. Washington e Jerusalém tentam ampliar a pauta do diálogo para incluir limites ao programa balístico iraniano, o fim do enriquecimento de urânio e a retirada do apoio de Teerã a grupos proxy na região — entre eles Hamas, Hezbollah e os Houthi — demandas que os negociadores iranianos rejeitam nos termos apresentados.
O histórico recente é ríspido. No ano anterior, cinco rodadas de conversas foram interrompidas abruptamente após um ataque sem precedentes de Israel ao Irã, gatilhando uma guerra de doze dias que contou com incursões norte-americanas direcionadas a infraestruturas nucleares iranianas. Desde então, a área do Golfo e o Mediterrâneo oriental viram um reposicionamento militar significativo: o presidente Trump deslocou dois grupos de porta-aviões e dezenas de caças para a região, enquanto o Irã advertiu que responderá com firmeza a qualquer ataque.
Fontes internas citadas pelo Financial Times sugerem que Teerã prevê a possibilidade de escalada, com alvos que vão de bases americanas até o Estreito de Hormuz e navios de guerra — uma estratégia de pressão que busca ampliar custos, forçando o adversário a calcular com cautela. Em linguagem de estratégia, trata-se de um redesenho de fronteiras invisíveis entre dissuasão e coerção, onde cada movimento no tabuleiro tem potencial para reconfigurar a tectônica de poder regional.
À medida que as conversas se desenrolam em Genebra, o desafio imediato é dual: conciliar exigências ocidentais por garantias que reduzam riscos militares e encontrar uma fórmula aceitável para Teerã, que preserve sua soberania e seus interesses estratégicos. Hoje, as negociações representam não apenas um diálogo sobre tecnologia e verificações, mas uma tentativa de reconstruir alicerces frágeis da diplomacia que suportem uma paz duradoura — ou, na pior das hipóteses, retardem um novo ciclo de confrontos.
Como sempre nestes episódios, o resultado dependerá da capacidade das partes de traduzir pressões externas em compromissos mensuráveis, e da prudência com que as capitais calculam o próximo movimento. No momento, Genebra é tanto uma mesa de negociação quanto um tabuleiro onde cada ator avalia riscos, custos e oportunidades — e onde uma jogada errada pode aprofundar a crise regional.






















