Por Marco Severini — À vigília do 47º aniversário da Revolução de 1979, cuja consequência foi a queda do xá e a instalação da atual República Islâmica, a República Islâmica do Irã chega ao 11 de fevereiro diante de uma crise de legitimidade que alguns historiadores, como Ervand Abrahamian, qualificam como a mais grave desde a sua fundação. O quadro interno e externo desenha-se como um tabuleiro em mutação, onde peças centrais perdem mobilidade e alicerces mostram trincas profundas.
As intensas manifestações de janeiro — inicialmente motivadas pelo aumento do custo de vida — adquiriram rápida dimensão política e transformaram-se em um protesto nacional contra o sistema. A resposta do Estado foi uma repressão de tal dureza que vozes do campo moderado, ainda parte do aparato político, chegaram a pedir um passo atrás do líder supremo, Ali Khamenei. Aos olhos da opinião pública internacional e dos atores regionais, o incômodo com a sucessão do poder e o estado de saúde avançado do líder elevam a imprevisibilidade estratégica do regime.
Em um gesto público calculado, Khamenei divulgou um vídeo convocando a população a participar das manifestações oficiais do 11 de fevereiro para demonstrar a “força e a dignidade da nação iraniana” e “frustrar os inimigos”. Historicamente, as marchas estatais neste aniversário servem ao duplo propósito de reafirmar uma base interna de legitimidade e enviar um sinal à comunidade internacional sobre o apoio popular ao regime. Porém, a atual conjuntura torna essa performance mais frágil: as ruas, as praças e até os bazares expõem fissuras que não se resolvem com atos de palco.
No front externo, Teerã enfrentou, nos últimos meses, uma série de choques: a chamada “guerra de 12 dias” de junho contra Israel; ataques americanos dirigidos a instalações vinculadas ao programa nuclear; e a evidente apatia de aliados tradicionais, como Rússia e China, diante de ofensivas que afetam o núcleo estratégico do Estado iraniano. Paralelamente, houve um significativo desgaste do chamado “Eixo da Resistência” — a rede de milícias xiitas que projeta o poder iraniano regionalmente — e a inclusão dos Pasdaran (Guardas da Revolução) na lista de organizações consideradas “terroristas” por entidades até então relutantes. Ao mesmo tempo, surgem ameaças explícitas, nos termos de administrações anteriores, sobre potenciais intervenções militares, e um flerte diplomático renovado em relação ao programa nuclear com interlocutores norte-americanos.
No terreno doméstico, o movimento “Mulher, Vida, Liberdade”, desencadeado em 2022, consolidou rupturas sociais irreversíveis. A contestação aberta ao mandamento do véu por grande parte das mulheres é um ataque simbólico e prático a uma das pedras de toque do sistema teocrático. Surpreendentemente, manifestações originadas nas fileiras dos comerciantes dos bazares evidenciaram, pela primeira vez em amplo espectro, símbolos monarquistas e invocações ao retorno de Reza Pahlavi, filho do último xá, sinalizando que a contestação extrapolou as divisões convencionais do espectro político iraniano.
Como resposta, o regime lançou uma ampla operação de silenciamento: prisões em massa de manifestantes, ativistas e, nas últimas jornadas, detenções entre membros do campo reformista que ousaram criticar publicamente a conduta das autoridades e reivindicar mudanças profundas no sistema. As Guardas da Revolução ampliaram detenção de figuras políticas que, frente à repressão sangrenta, apontaram para Khamenei como parte do problema.
Analistas como Abbas Milani, da Universidade de Stanford, e observadores regionais destacam que a combinação de desgaste interno e pressão externa cria uma equação perigosa para o regime: manter a aparência de controle enquanto perde, gradualmente, a margem de manobra legítima entre a população. No tabuleiro estratégico, quando uma peça central se torna vulnerável, o jogo inteiro reestrutura-se. O 11 de fevereiro, portanto, não será apenas uma comemoração: será um teste público da capacidade de resistência e renovação — ou do início de um redimensionamento das fronteiras invisíveis do poder iraniano.
Em última análise, a teocracia enfrenta uma encruzilhada onde estratégias tradicionais de intimidação e espetáculo público podem não ser suficientes. Se a tectônica do poder continuar a se deslocar, as próximas jogadas serão decisivas para o futuro político, social e geoestratégico do Irã e da região.






















