Por Marco Severini — Em um movimento que manifesta com clareza a tensão crescente entre Teerã e o bloco europeu, o Irã convocou nesta segunda-feira os embaixadores de todos os países da União Europeia com representação em Teerã. A ação é resposta direta à recente decisão dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE de qualificar o Corpo das Guardas da Revolução Islâmica (IRGC) como uma “organização terrorista” a nível europeu.
O porta-voz do ministério das Relações Exteriores, Esmail Baghaei, descreveu a designação como um “erro estratégico” e um “insulto ao Irã”, afirmando que a convocação dos diplomatas europeus representa apenas um “passo mínimo” e que Teerã avalia medidas adicionais de resposta. A linguagem escolhida — contida, mas com carga política — sinaliza que o governo iraniano quer demonstrar firmeza sem, por ora, provocar uma escalada militar direta.
No Parlamento, o presidente Mohammad Baqer Qalibaf já havia anunciado que o Irã se reservava o direito de considerar as forças armadas europeias como “grupos terroristas“, invocando o artigo 7 da lei sobre contramedidas relacionada à designação do IRGC. Em um gesto alto em termos simbólicos, Qalibaf e vários parlamentares usaram o uniforme dos pasdarans — as forças do IRGC — como expressão pública de solidariedade institucional.
O chanceler Abbas Araghchi também publicou nota crítica nas redes afirmando que a Europa, ao alimentar o fogo regional, comete um “grave erro estratégico”. Araghchi acusou os governos europeus de hipocrisia seletiva — apontando a ausência de respostas contundentes à ofensiva israelense em Gaza e, simultaneamente, a pressa em levantar questões sobre direitos humanos no Irã — e afirmou que a posição europeia é danosa aos próprios interesses do continente, especialmente diante do risco de efeitos econômicos colaterais, como o aumento dos preços de energia.
Do ponto de vista geopolítico, trata-se de um movimento que redesenha, ainda que de forma sutil, as fronteiras da influência. A decisão da UE e a reação de Teerã representam dois lances num tabuleiro de xadrez estratégico em que cada jogador testa os limites do outro. A retórica iraniana mistura justiça doméstica, projeção de poder e advertência econômica — elementos que, em conjunto, funcionam como alicerces frágeis da diplomacia em momentos de crise.
Além do simbolismo político e das possíveis retaliações diplomáticas, o episódio abre um novo capítulo nas relações entre o Irã e o Ocidente: a tensão não é apenas militar, mas também normativa, cultural e econômica. A leitura prudente deve considerar que cada gesto poderá provocar reações em cadeia numa região já marcada por tectônica de poder instável. Teerã dá um passo formal e público; Bruxelas terá de avaliar se converte seu movimento em isolamento político, sanções adicionais ou se procura um novo canal de contenção para evitar uma escalada indesejada.
Como analista, observo que esta crise exigirá dos atores europeus uma estratégia calibrada: resposta firme aos impulsos populistas e, ao mesmo tempo, manutenção de canais diplomáticos para que o tabuleiro não avance para um conflito aberto. A estabilidade da região, hoje mais do que nunca, depende da habilidade dos governos em jogar não apenas com força, mas com arquitetura diplomática.





















