Marco Severini — O recente aumento de retórica entre Teerã e Washington medeia um momento crítico na tectônica de poder do Oriente Médio. O chefe do Estado-Maior das Forças Armadas iranianas, Abdolrahim Mousavi, reagiu com linguagem dura às ameaças externas: “se os Estados Unidos atacarem o Irã, nenhum americano estará seguro”. Segundo a agência Al Jazeera, Mousavi acrescentou que “as chamas da região queimarão a América e seus aliados desde o interior” e que a doutrina de defesa do país foi revisada e convertida em capacidades ofensivas.
Na declaração, Mousavi enfatizou estar plenamente pronto para um confronto e advertiu que o mundo verá “um rosto diferente do Irã“. Atingiu também dimensões geográficas e estratégicas quando sugeriu que quem fala em bloqueio naval “deveria revisar a geografia” — uma metáfora dura sobre as linhas logísticas e de comunicação em disputa no tabuleiro estratégico regional.
No outro lado do palco, o presidente americano Donald Trump repetiu o desejo de um pacto com o Irã a partir de sua base em Mar-a-Lago. “Espero que façamos um acordo“, afirmou, advertindo, porém, que, na falta de entendimento, os Estados Unidos agirão e será então testada a veracidade da ameaça do aiatolá Ali Khamenei de uma “guerra regional”. Trump lembrou ainda que os EUA mantêm o maior desdobramento naval na região, a “dois dias” do território iraniano, realçando a capacidade de projeção de poder norte-americana.
Paralelamente, sinais de um canal diplomático ganharam força. A agência iraniana Fars confirma que as conversas nucleares entre Irã e Estados Unidos provavelmente ocorrerão “nos próximos dias na Turquia” — informação inicialmente veiculada pelo site Axios. O entusiasmo pelo diálogo recebeu aval do presidente iraniano Masoud Pezeshkian e se insere no esforço para evitar o agravamento das tensões e reduzir o risco de um confronto aberto.
Um jogo de mediação vem sendo articulado por Ankara: no dia 30 de janeiro, o presidente turco Recep Tayyip Erdogan e o chefe da diplomacia Hakan Fidan receberam o ministro iraniano Abbas Araghchi, propondo facilitar a ponte com Washington. Fontes citadas pelo Axios indicam que Turquia, Egito e Qatar trabalham para organizar um encontro entre o enviado da Casa Branca, Steve Witkoff, e altos funcionários iranianos em Ancara ainda esta semana — uma informação também confirmada pela emissora israelense Canal 12.
O ministro iraniano Araghchi manteve conversas telefônicas com homólogos da Arábia Saudita, Egito e Turquia para debater “os últimos desenvolvimentos regionais e internacionais”, segundo a agência estatal Irna. Araghchi esta em Ancara para prosseguir o diálogo, enquanto a Casa Branca assegura que Trump ainda não tomou uma decisão final e permanece aberta a uma solução diplomática. Resta, porém, uma interrogação estratégica: se o Crepúsculo da autoridade do aiatolá Khamenei permitirá a aceitação de concessões que evitem a escalada.
Em resumo, o episódio configura-se como um movimento decisivo no tabuleiro geopolítico: ameaças militares e janelas de diplomacia coexistem num mesmo espaço, testando os alicerces frágeis da diplomacia regional. A negociação — se efetivada em Ancara — poderá redesenhar fronteiras invisíveis de influência no Oriente Médio, ou, na ausência de acordo, precipitar um confronto cujas consequências se estenderiam bem além das linhas costeiras iranianas.






















