Por Marco Severini — A tensão no cenário do Oriente Médio escalou para uma nova fase de risco estratégico. O Corpo dos Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC) emitiu um aviso direto à União Europeia: qualquer Estado que se aliar a Israel e aos Estados Unidos nas operações contra o Irã será considerado um alvo legítimo na resposta iraniana. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, reagiu com um apelo à moderação e à desescalada regional.
Em entrevista à France 24, repercutida pelo The Guardian, o vice-ministro das Relações Exteriores iraniano, Majid Takht-Ravanchi, afirmou que Teerã interpreta o atual confronto como uma guerra imposta do exterior. “Se um país se unir à América e a Israel na agressão contra o Irã, tornar-se-á por sua vez um alvo legítimo”, declarou. Takht-Ravanchi também acusou Washington de ter traído esforços de negociação que, segundo ele, vinham sendo conduzidos “de boa-fé” antes do ataque inicial.
O conflito, segundo fontes oficiais e reportagens internacionais, deflagrou em 28 de fevereiro com uma operação militar conjunta liderada pelos EUA — batizada de “Epic Fury” — e por Israel — denominada “Roar of the Lion“. Nos ataques iniciais, morreu o então líder supremo, Ali Khamenei, junto a altos responsáveis civis, militares e técnicos do programa nuclear iraniano. Em seguida, a liderança religiosa iraniana nomeou Mojtaba Hosseini como novo Guia Supremo.
No corpo do noticiário, um fato humanitário perturbador veio à tona: a investigação militar norte-americana admitiu responsabilidade pelo bombardeio que atingiu a escola primária feminina Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do Irã, onde 168 meninas perderam a vida. O reconhecimento formal de tal incidente adiciona uma dimensão moral e política complexa ao tabuleiro do conflito.
O impacto logístico e financeiro também começou a ser quantificado. Uma análise do Center for Strategic and International Studies (CSIS) estimou um custo de aproximadamente 3,7 bilhões de dólares nas primeiras 100 horas da campanha, com um custo médio diário na ordem de 890 milhões de dólares — cifras que evidenciam o peso material da escalada militar.
O front geopolítico se amplia quando vozes de Washington alimentam cenários de mudança de regime. Em entrevista à CNN, o ex-presidente Donald Trump declarou rejeitar acordos e proclamar a exigência de “rendição incondicional” do Irã, alinhando-se ao discurso histórico de alterações de regime que tanto perturbam a estabilidade regional.
As declarações do IRGC e a resposta da Comissão Europeia ilustram uma dualidade de forças: de um lado, a lógica da retaliação e da dissuasão; de outro, os apelos institucionais por contenção para evitar uma expansão do conflito que redesenhe fronteiras de influência de forma abrupta. Em termos estratégicos, estamos diante de um movimento decisivo no tabuleiro — cujos efeitos se estendem da segurança militar à economia e à legitimidade diplomática.
Para a União Europeia, o desafio imediato é manter uma política que evite tornar-se mero espectador instrumentalizado, preservando canais diplomáticos e limitando os riscos de contágio. Para o Irã, a retórica de legitimidade de alvos reflete alicerces frágeis da sua diplomacia de sobrevivência.
Enquanto os atores reavaliam posições e alianças, a comunidade internacional observa a tectônica de poder em processo de rearranjo: cada movimento pode reconstituir equilíbrios regionais e globais, exigindo, mais que reações impulsivas, uma arquitetura de contenção baseada em cálculo e prudência.





















