Em um movimento calculado no tabuleiro diplomático, o Irã anunciou que permitirá que inspetores da AIEA inspecionem os seus sítios nucleares, inclusive locais subterrâneos e em regiões montanhosas. A declaração foi feita por Ali Larijani, secretário do Conselho Superior de Segurança do país, que busca oferecer garantias técnicas sem, contudo, ceder sobre o eixo sensível do programa balístico.
Segundo Larijani, a concessão visa demonstrar que o Irã não persegue armas nucleares. “Permettere agli ispettori dell’AIEA di ispezionare i nostri siti nucleari, anche quelli che si trovano nel sottosuolo e sulle montagne”, disse ele, reafirmando simultaneamente que a questão dos mísseis é considerada matéria de segurança nacional e “não será negociada”.
O gesto ocorre na véspera de conversações técnicas em Genebra, onde o ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, encontrará delegações americanas e o diretor-geral da AIEA, Rafael Mariano Grossi. A delegação dos Estados Unidos será liderada pelo enviado especial da Casa Branca, Steve Witkoff, em conjunto com o conselheiro presidencial Jared Kushner. Em post na plataforma X, Araghchi enfatizou que “a submissão às ameaças não está sobre a mesa das negociações”.
Do ponto de vista estratégico, trata-se de um movimento dual: por um lado, uma oferta técnica destinada a reduzir tensões e mostrar transparência perante a comunidade internacional; por outro, a fixação de uma linha vermelha sobre capacidades convencionais e de projeção de poder. Em linguagem geopolítica, o Irã abre uma rota de inspeção nos labirintos subterrâneos, enquanto conserva intocados os alicerces da sua dissuasão balística.
A presença de mediadores regionais também merece destaque. O chanceler omanense Badr Albusaidi atuará como interlocutor nas semanas que antecedem o encontro formal com os americanos, sinalizando a persistência de canais discretos de diálogo no Golfo. Muscat, nesse papel, funciona como ponte diplomática — uma arquitetura clássica de mediação que evita o choque direto entre as grandes peças do tabuleiro.
Nos termos declarados por Teerã, os encontros em Genebra deverão ser “discussões técnicas aprofundadas” com especialistas nucleares, e não uma arena para concessões políticas amplas. A postura iraniana traduz a tática de negociar posições técnicas para ganhar legitimidade internacional, enquanto preserva as capacidades estratégicas consideradas essenciais para sua segurança.
Como analista, observo que esse tipo de manobra reflete a tectônica de poder regional: a expansão da inspeção pode reduzir o risco imediato de escalada por suspeitas nucleares, mas a recusa em tratar do programa de mísseis mantém um ponto de tensão aberto com Washington e seus aliados. O resultado prático dependerá da capacidade das partes de transformar a abertura técnica em confiança verificada, sem que isso seja interpretado como fraqueza estratégica por Teerã.
Em suma, a iniciativa iraniana é um movimento calculado — uma oferta limitada que visa deslocar o jogo para o terreno técnico, preservar as peças estratégicas e testar a disposição dos interlocutores ocidentais para responder com reciprocidade. No tabuleiro da estabilidade, trata-se de uma jogada sutil, com potencial de reduzir o ruído imediato, mas sem redesenhar, por ora, os contornos profundos da disputa.






















