Por Marco Severini — Em análise sóbria dos ecos de um movimento que sacudiu o equilíbrio interno do Irã, novas alegações trazidas à tona por uma investigação do Time apontam para um episódio de violência de escala incomensurável: segundo dois altos funcionários do Ministério da Saúde iraniano, aproximadamente 30.000 manifestantes podem ter sido mortos entre os dias 8 e 9 de janeiro.
As fontes ouvidas pela reportagem descrevem um quadro tão extremo que as estruturas logísticas hospitalares teriam entrado em colapso: os sacos para cadáveres teriam se esgotado, e as autoridades recorreram a caminhões em substituição às ambulâncias para transportar os corpos. Essa cifra, se confirmada, contrasta violentamente com o balanço público divulgado pelo governo em 21 de janeiro, que registrou oficialmente 3.117 mortos.
O número relatado ao Time coincide, segundo as mesmas fontes, com um levantamento interno e reservado realizado por médicos e equipes de emergência em hospitais do país, um censo hospitalar que buscava contabilizar óbitos registrados nas unidades de saúde durante os episódios mais sangrentos das manifestações. A existência desse registro secreto, mesmo que parcial, alimenta suspeitas de uma discrepância deliberada entre dados oficiais e realidades locais.
Na minha leitura como analista de geopolítica, esse episódio apresenta-se como um movimento decisivo no tabuleiro do poder interno: a alegada diferença entre 3.117 e 30.000 não é apenas numérica, é política. Se corroborada, exporia não somente a brutalidade da repressão, mas também uma tentativa de conter a narrativa — um gesto de arquitetura diplomática que visa preservar a legitimidade do Estado diante de audiências internas e externas.
Há, porém, limites factuais a considerar. Até o presente momento, essa estimativa não foi totalmente verificada por fontes independentes internacionais. Em contextos de conflito interno e censura informativa, registros locais e coletivos de profissionais de saúde podem representar documentação valiosa, mas também enfrentam desafios de amostragem, comunicação e segurança. A prudência analítica exige separar a gravidade das alegações de sua confirmação plena.
No plano externo, alegações dessa magnitude redesenham fronteiras invisíveis da diplomacia: governos parceiros, organismos de direitos humanos e coalizões regionais serão forçados a reavaliar estratégias de pressão, sanção e diálogo. A tectônica de poder regional pode sofrer novos deslocamentos se a narrativa oficial persistir em se distanciarem das evidências relatadas por funcionários dissidentes e profissionais da saúde.
Como sempre, recomendo acompanhar a evolução das verificações independentes e das comunicações oficiais — a peça subsequente no tabuleiro determinará se estamos diante de um episódio isolado de brutalidade intensificada ou de um ponto de inflexão duradouro na relação entre Estado e sociedade no Irã.
Nota do autor: o texto mantém a fidelidade às informações publicadas pelo Time e às declarações atribuídas a funcionários do Ministério da Saúde iraniano, sem adotar suposições adicionais não corroboradas por fontes verificáveis.





















