Uma operação do ICE no subúrbio de Minneapolis voltou a colocar sob questionamento a tática dos agentes de imigração: nos primeiros dias do ano, ao menos quatro menores vinculados ao mesmo distrito escolar foram detidos ou envolvidos em abordagens, entre eles uma criança de 5 anos chamada Liam. A imagem do menino, usando um gorro de lã azul e uma mochila, ladeado por agentes com o rosto coberto e armados, tornou-se viral e inflamou o debate público.
Segundo a reconstrução disponível, a operação—realizada no dia 20 de janeiro—buscava prender o pai de Liam, identificado como Adrian Alexander Conejo Arias, imigrante oriundo do Equador. Autoridades do distrito de Columbia Heights relataram que a prisão ocorreu na entrada da residência; testemunhas e representantes do sistema escolar descrevem o episódio como o uso do menor como espécie de “isca” para alcançar o adulto.
O Departamento de Segurança Interna (DHS) e o próprio ICE emitiram nota pública contrária a essa versão: afirmam que os agentes não “visaram” o menor, mas que o pai fugiu quando os agentes se aproximaram do veículo, abandonando a criança no local. Ainda de acordo com a versão oficial, um agente permaneceu com o menino para zelar por sua segurança enquanto os demais efetuavam a detenção de Adrian Alexander Conejo Arias. O ICE acrescentou que Conejo Arias havia sido anteriormente libertado por medidas da administração Biden.
O episódio, contudo, não existe isoladamente no tabuleiro: ocorreu em um momento de tensão ampliada pela morte de Renée Good, 37 anos, morta por um agente do ICE, e por relatórios forenses que lançam sombras sobre as condições dos centros de detenção. Uma autópsia recente sobre a morte de Geraldo Lunas Campos, um imigrante cubano de 55 anos que faleceu em 3 de janeiro no campo East Montana, no Texas, concluiu que a causa foi asfixia por compressão do pescoço e do tórax, enquadrando o óbito como homicídio e relatando sinais de confronto com guardas — contraponto à explicação inicial de tentativa de suicídio apresentada por autoridades.
Em coletiva, Zena Stenvik, superintendente do distrito de Columbia Heights, questionou com severidade a prática: “Por que deter uma criança de 5 anos? Não me convençam de que o menino será classificado como um criminoso violento”. A pergunta é política e moral: para além da imagem viral, está em jogo o tecido social de comunidades fronteiriças e a confiança entre saúde pública, escolas e forças de segurança.
Do ponto de vista estratégico, tratamos aqui de um movimento que desenha linhas de influência e delimita permissões operacionais. Quando a autoridade recorre à presença física de unidades de contenção em bairros escolares, o efeito prático não é apenas a detenção: é uma redefinição das “zonas seguras” na percepção pública, com efeitos sobre a matrícula, a presença dos pais e a integração comunitária. É um lance no tabuleiro que fragiliza alicerces da diplomacia interna e da coesão social.
As investigações continuam e a cobertura mediática deverá acompanhar novos desdobramentos. A tensão entre narrativa institucional e relatos locais promete alimentar disputas jurídicas e políticas. Enquanto isso, a imagem de Liam permanece como um sinal: uma peça sensível no redirecionamento de políticas migratórias e na rearmonia — ou fratura — das relações entre Estado e sociedade civil.




















