Por Marco Severini — Em mais um movimento decisivo no tabuleiro da tectônica de poder que redefine Hong Kong, o magnata da imprensa pró-democracia Jimmy Lai foi condenado a 20 anos de prisão por crimes contra a lei de segurança nacional. A pena, anunciada nesta terça-feira, acendeu protestos de organizações de direitos humanos e reacendeu tensões entre Pequim e a comunidade internacional.
O veredito — o mais severo já proferido à luz da legislação imposta por Pequim — refere-se a acusações segundo as quais Lai teria incitado governos estrangeiros a aplicar sanções contra Hong Kong e publicado matérias consideradas “sediciosas” durante sua gestão do extinto jornal Apple Daily. Aos 78 anos, cidadão britânico e fundador do veículo que se tornou símbolo da resistência jornalística local, Lai cumpre prisão desde 2020.
Os juízes qualificaram a conduta como “grave” e determinaram que duas das duas décadas de pena coincidiriam com uma condenação anterior por fraude, o que, na prática, traduz-se em mais 18 anos a cumprir. Durante a leitura da sentença, Lai manteve-se impassível; ao ser conduzido, saudou solenemente os presentes, entre eles sua esposa Teresa, o cardeal Joseph Zen e ex-jornalistas do Apple Daily. O advogado de defesa, Robert Pang, evitou confirmar se haverá recurso.
Em declarações emocionadas, filhos que vivem no exterior classificaram a punição como desproporcional e potencialmente letal: “Condemnar meu pai a essa pena draconiana é devastador para nossa família e põe em risco a sua vida”, disse Sebastien; Claire falou em “sentença cruel” diante do agravamento do estado de saúde do pai. Organizações como Human Rights Watch e Amnesty International qualificaram a decisão como um marco sombrio na erosão das liberdades em Hong Kong, enquanto o Comitê para a Proteção dos Jornalistas considerou o veredito um golpe final à liberdade de imprensa local.
As reações oficiais externas foram rápidas. De Londres, a ministra dos Negócios Estrangeiros, Yvette Cooper, pediu a Hong Kong que “põe fim a essa terrível experiência” e anunciou intenção de elevar o caso junto a Pequim. Taiwan afirmou que a sentença pisa sobre a liberdade de expressão. A União Europeia, por meio de sua porta-voz para os assuntos externos, também exortou as autoridades de Hong Kong a restaurarem a confiança na imprensa e cessarem perseguições a jornalistas.
Pequim, por sua vez, rejeitou as críticas e defendeu a decisão como uma aplicação legítima da lei destinada a proteger a segurança nacional e a estabilidade. No discurso das autoridades chinesas, a medida insere-se na narrativa de prevenção de riscos que, segundo elas, ameaça a ordem pública e a soberania.
Como analista que observa as jogadas de poder com a calma de um enxadrista, é preciso ler este desfecho em múltiplos planos. Em termos jurídicos e internos, trata-se de uma sinalização dura de que a legislação de segurança nacional continuará a ser aplicada com mão pesada. No tabuleiro internacional, porém, a sentença redesenha fronteiras invisíveis na diplomacia, pressionando aliados e adversários a recalibrar suas respostas sem quebrar alicerces frágeis de cooperação econômica e política.
Por fim, a condenação de Jimmy Lai representa muito mais do que a punição de um indivíduo: é um marcador histórico da transformação de Hong Kong, onde normas e práticas que até recentemente sustentavam a liberdade de imprensa e o Estado de direito são agora confrontadas por uma nova arquitetura legal e política. A consequência imediata é previsível — maior polarização externa e um endurecimento interno — mas o efeito estruturante no longo prazo será determinado pelas jogadas subsequentes de capitais diplomáticos e estratégicos no tabuleiro regional.






















