Hillary Clinton prestou depoimento fechado — porém gravado em vídeo — à Comissão de Vigilância da Câmara dos EUA, em Chappaqua, Nova York, numa sessão destinada a esclarecer supostas ligações do seu marido, o ex-presidente Bill Clinton, com o círculo de Jeffrey Epstein. Em tom calculado e com a autoridade de quem conhece os corredores do poder, a ex-secretária de Estado negou memória de encontros com Epstein e afirmou não possuir informações sobre as atividades criminosas atribuídas ao financista.
Ao abrir sua declaração na audiência, Hillary Clinton criticou a investigação por motivações partidárias, qualificando-a como um “teatro político de parte” e chegando a classificá-la como um “insulto ao povo americano”. Ainda assim, manteve postura institucional: pediu transparência e a convocação, sob juramento, de outras figuras cujos nomes aparecem nos arquivos do caso.
Entre as solicitações formalizadas, a ex-secretária pediu que a comissão emita mandados de intimação para o presidente Donald Trump e para o empresário Elon Musk, ambos mencionados nos documentos ligados a Epstein disponibilizados pelo Departamento de Justiça. No discurso de abertura, Clinton defendeu que um comitê devidamente comprometido com a transparência exigiria o “pleno lançamento dos dossiês” e a tomada de depoimentos sob juramento para esclarecer quem manteve relações com o financista condenado, morto em prisão federal em 2019.
O pedido para ouvir Elon Musk prende-se a uma troca de e-mails citada nos autos: em 25 de novembro de 2012, Musk teria perguntado a Epstein sobre “qual seria a noite da ‘festa mais desenfreada’ na sua ilha” — expressão que aparece nos arquivos públicos do DOJ. Musk já declarou que “nunca esteve em uma festa de Epstein” e que, em diversas ocasiões, pediu a responsabilização dos envolvidos, alegando ter sido mal interpretado.
Hillary também requisitou que a comissão convoque o secretário de Estado Marco Rubio e a procuradora-geral Pam Bondi, argumentando que seu depoimento poderia esclarecer por que, segundo ela, a atual administração estaria, na visão da ex-secretária, negligenciando vítimas e favorecendo traficantes. A ênfase foi clara: a investigação, para ser legítima, deve incluir todos os elos relevantes do caso.
Como analista que observa o movimento dos centros de poder com lentes de estratégia, interpreto a iniciativa de Hillary Clinton como um movimento defensivo, porém com alcance ofensivo: trazer outros atores para o tabuleiro obriga a comissão a demonstrar equilíbrio e, simultaneamente, dilui a narrativa de caça-partidária. É um lance de xadrez institucional — reposicionar peças para transformar uma aparente pressão em oportunidade para forçar a exposição ampla dos arquivos.
O episódio ressalta fragilidades no arcabouço da investigação: mandatos de intimação seletivos e audiências a portas fechadas alimentam desconfianças. Se a comissão atender aos pedidos de Clinton, o desenrolar poderá redesenhar fronteiras invisíveis na percepção pública sobre o caso Epstein, testando a resistência das instituições à pressão política.
O depoimento em Chappaqua, ao mesmo tempo em que reafirma a postura de defesa pessoal de Hillary Clinton, mantém firme a exigência por uma investigação mais abrangente e transparente — um pedido que, politicamente, visa tanto a verdade factual quanto a restauração de credibilidade institucional.






















