Por Marco Severini — Espresso Italia
Nos documentos conhecidos como Epstein Files emergiu uma imagem de 2006 que trouxe de volta ao tabuleiro uma figura singular da ciência: o físico teórico Stephen Hawking. A fotografia, obtida no contexto das recentes divulgações, o retrata reclinado num espreguiçadeira à beira da piscina, segurando um copo com bebida avermelhada, acompanhado por duas mulheres de biquíni. A cena se passou no Hotel Ritz, na ilha de St Thomas, durante um evento científico.
O episódio exige leitura cuidadosa dos fatos. Hawking, falecido em 2008 e portador de esclerose lateral amiotrófica desde a juventude, participava como um dos 21 palestrantes do encontro, no qual abordou temas centrais da cosmologia quântica e da origem do universo. Segundo um post no blog da Jeffrey Epstein Foundation, os convidados se reuniam para “discutir, relaxar na praia e visitar a ilha privada próxima de Epstein” — uma declaração que, na linguagem de diplomacia pública, revela a intenção de mesclar ciência e sociabilidade entre os patrocinadores e os especialistas.
Nos papéis ligados a Jeffrey Epstein, o nome de Hawking aparece cerca de 205 vezes. Importante, contudo, é frisar que não há registro fotográfico público que o mostre ao lado de Epstein propriamente dito. A família do cientista reagiu com precisão e firmeza: as duas mulheres presentes na imagem foram identificadas como cuidadoras de longa data — as chamadas badantes — e não como modelos ou acompanhantes ligadas ao financista.
A declaração familiar sublinha um ponto humano e juridicamente relevante: Stephen Hawking viveu décadas com limitações severas, necessitando de ventilação, sintetizador de voz, cadeira de rodas e assistência médica 24 horas. “Qualquer insinuação de comportamento impróprio por parte dele é falsa e totalmente infundada”, afirmaram.
Num plano mais amplo, a aparição da foto funciona como um movimento no tabuleiro de poder informacional: promove questionamentos sobre os meandros das relações entre ciência, filantropia e financiamento privado. A tectônica de influência que emerge desses arquivos ilumina como encontros aparentemente inócuos podem ser reinterpretados quando desenhados em mapas novos de atenção pública.
Também nos Epstein Files apareceram outras declarações e documentos envolvendo figuras públicas — desde depoimentos fechados, como o de Hillary Clinton, até correspondências que citam nomes do espetáculo e da política. Cada fragmento acrescenta uma camada aos alicerces, por vezes frágeis, da diplomacia cultural e da governança ética do financiamento acadêmico.
Do ponto de vista analítico, a fotografia de 2006 não se explica isoladamente: ela integra uma narrativa mais vasta que precisa ser avaliada com cautela, separando contato social legítimo de possíveis condutas reprováveis. A família de Hawking pediu que não se faça conjecturas sem provas e que se preserve a memória de um dos maiores intelectos do século XX.
Em suma, esta é uma página a mais na longa partitura dos Epstein Files — um movimento que convoca historiadores, juristas e diplomatas da ciência a reconsiderar os limites entre patronato e independência intelectual.






















