Por Marco Severini — Em um movimento que redesenha, mais uma vez, as linhas invisíveis entre imprensa e privacidade, teve início nesta manhã na Alta Corte de Londres o processo movido pelo príncipe Harry contra o tablóide Daily Mail e a editora Associated Newspapers Ltd. A ação reúne um conjunto de figuras públicas britânicas que alegam ter sido alvo de uma sistemática e ilegal coleta de informações pessoais ao longo de décadas.
Na tribuna de abertura, o advogado dos autores, David Sherborne, denunciou um padrão de comportamento que descreveu como uma “intrusão assustadora e ilegal na vida privada” dos queixosos. Segundo a peça inicial, os repórteres e investigadores ao serviço do Daily Mail e do Mail on Sunday teriam recorrido, entre cerca de 1993 e 2011, a investigadores privados para interceptar comunicações, obter faturas telefônicas detalhadas, prontuários médicos e extratos bancários.
Além do duque de Sussex, que compareceu sorridente e trajando um terno azul-escuro, figuram como reclamantes nomes conhecidos do panorama britânico: o músico Elton John e seu marido David Furnish, as atrizes Elizabeth Hurley e Sadie Frost, o ex-deputado liberal-democrata Simon Hughes e Doreen Lawrence, mãe de Stephen Lawrence — vítima de homicídio racial há mais de 30 anos. Nesta manhã, além de Harry, estiveram presentes em juízo Hurley, Frost e Hughes.
Sherborne qualificou como prática continuada, explicando que tais métodos garantiam aos tabloides “informações sensíveis” que permitiam matérias invasivas. A defesa alega que muitos documentos foram destruídos — entre eles faturas que poderiam demonstrar a contratação de investigadores — e acusa jornalistas de terem conhecimento de “cadáveres nos armários”.
Do outro lado, a editora refuta as acusações e, através de seus representantes, classificou-as como “absurdas”. Em peça escrita, o advogado da companhia, Antony White, sustenta que várias denúncias foram apresentadas fora dos prazos legais, observando perplexidade pela ausência de reclamações formais no momento da publicação dos artigos contestados.
O calendário do processo prevê que o príncipe Harry preste depoimento na quinta-feira. Trata-se de mais um capítulo num tabuleiro em que familiares da coroa já foram protagonistas: o príncipe William, por exemplo, depôs em 2023 contra o Daily Mirror, tornando-se o primeiro membro da família real a testemunhar em um processo deste gênero em mais de um século.
Como analista com foco em dinâmica de poder, enxergo este episódio como um movimento decisivo no xadrez da responsabilidade jornalística e dos direitos individuais: o julgamento não apenas apura práticas passadas, mas também pode redefinir os alicerces frágeis da diplomacia pública entre mídia e figuras institucionais. A acusação de uso sistemático de investigadores privados para violar a vida privada de pessoas públicas configura uma tectônica de poder que, se confirmada, exigirá correções estruturais — um redesenho de fronteiras invisíveis entre interesse público e exploração sensacionalista.
Nos próximos dias, as peças processuais e os depoimentos, inclusive o do próprio príncipe, serão peças-chave para entender se houve, na prática, uma política editorial tolerante com práticas ilícitas. Para observadores da Realpolitik da informação, o veredito terá repercussão não só no mercado de mídia britânico, mas também no frágil equilíbrio entre liberdade de imprensa e proteção à dignidade humana.


















