Por Marco Severini — Em um movimento decisivo no tabuleiro da paleontologia, pesquisadores associados ao Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS) anunciaram a identificação de uma nova espécie de dinossauro herbívoro do Cretáceo, dotada de estruturas queratinosas comparáveis aos acúleos de um porco‑espinho moderno. A espécie foi batizada de Haolong dongi, em homenagem ao paleontólogo chinês Dong Zhiming, e a descoberta foi publicada na revista Nature Ecology & Evolution.
O fóssil, encontrado na China, preservou de forma excepcional a pele de um exemplar jovem de iguanodonte com cerca de 125 milhões de anos. Utilizando varreduras de raio‑X em alta resolução e análises histológicas, a equipe internacional conseguiu observar células cutâneas fossilizadas e a morfologia das projeções: espinhos ocos e estruturas corneadas distribuídas por grande parte do corpo, análogas às defesas de animais quillados modernos.
Do ponto de vista funcional, essas projeções parecem constituir um mecanismo de defesa previamente não documentado em iguanodontes — um grupo que incluía animais de 6 a 10 metros e várias toneladas, dependendo da espécie. Os autores do estudo propõem duas hipóteses principais: primeiro, um papel dissuasório direto contra predadores; segundo, funções auxiliares como termorregulação (espinhos ocos podendo facilitar troca térmica) ou até um papel sensorial, detectando movimentos e alterações ambientais.
Importante ressalva: o espécime identificado é juvenil, o que deixa em aberto se os adultos de Haolong dongi retinham as mesmas estruturas ao longo da vida. Essa incerteza é um convite à prudência científica e um chamado para novas escavações e análises comparativas.
Do ponto de vista da história natural, a descoberta redesenha fronteiras invisíveis na evolução das coberturas integumentares dos dinossauros. Até agora, não havia evidência robusta da existência de acúleos deste tipo em dinossauros; a presença documentada em um iguanodonte expande o repertório adaptativo conhecido e obliga a reavaliar hipóteses sobre comportamento anti‑predatório e regulação térmica em herbívoros mesozoicos.
Como em uma partida de xadrez de longo alcance, cada fóssil bem preservado altera o posicionamento das peças interpretativas: estruturas consideradas exclusivas de grupos distantes reaparecem em contextos inesperados, exigindo um redesenho das linhas de influência evolutiva. Para a diplomacia do conhecimento, este achado representa tanto um avanço metodológico — graças à integração de técnicas de imagem e histologia — quanto uma recomposição dos alicerces da paleobiologia funcional.
Publicações futuras deverão esclarecer se o padrão observado no indivíduo jovem é ontogeneticamente transitório ou uma característica fixa da espécie. Enquanto isso, Haolong dongi permanece como um marcador cartográfico na tectônica do entendimento sobre a diversidade morfológica dos dinossauros, lembrando que, no grande tabuleiro geológico, novas peças podem surgir a qualquer tempo e deslocar estratégias inteiras de interpretação.




















