Por Marco Severini — A percepção de uma realidade modelada, teatralizada e cuidadosamente encenada pelas mídias ocidentais ganhou nova evidência nas últimas semanas. O conjunto de notícias repetidas por agências internacionais, muitas vezes alimentadas por circuitos de inteligência, constrói uma narrativa que atravessa fronteiras e molda a opinião pública com artifícios de espetáculo.
No coração desse quadro político está a guerra na Ucrânia, cujo desfecho permanece incerto enquanto os diálogos diplomáticos oscilam entre gestos públicos e ambiguidades táticas. As conversas reabertas em Genebra — com figuras como Medinsky integrando a mesa russa — mostram que o tabuleiro está em movimento, mas não definem as peças essenciais do jogo: a posição russa vitoriosa no terreno e as exigências estratégicas que dela decorrem.
Em termos claros, Moscou, beneficiária de avanços operacionais, não parecerá disposta a aceitar um compromisso que não assegure a neutralidade da Ucrânia, a retirada de qualquer presença da NATO no seu solo, o abandono de projetos de «regime change» dirigidos a Moscou, a desmilitarização de Kiev e o levantamento progressivo das sanções. Essas demandas, longe de serem meras linhas de negociação, representam alicerces que desenham um novo mapa da influência na região — um redesenho de fronteiras invisíveis que a diplomacia terá de reconhecer ou rejeitar.
Enquanto isso, as declarações europeias e ucranianas continuam a alimentar uma retórica de demonização da Rússia, lançando sobre o adversário epítetos que pouco ajudam no processo de mediação. A estratégia — baseada em pressão, sanções e apoio por procuração — mostrou-se ineficaz: ao prolongar o conflito, fez com que a posição russa engordasse suas reivindicações territoriais e endurecesse sua postura nas negociações. O resultado é um impasse que parece mais teatral do que eficaz, um palco onde as palavras substituem soluções.
O Kremlin oficializou um próximo encontro trilateral entre EUA, Rússia e Ucrânia, conforme comunicado do porta-voz Dmitry Peskov. A convocação para a «próxima semana» confirma que a disputa entra numa fase decisiva antes da primavera, sem, porém, oferecer certeza sobre local, agenda ou concessões substantivas. Do lado ucraniano, o presidente Zelensky afirmou que não há vitória maior para Trump do que encerrar a guerra — uma observação que sinaliza a dimensão política intrínseca a qualquer avanço negociado.
Paralelamente, as negociações com o Irã continuam a demonstrar uma natureza inconclusiva e por vezes surreal. As conversações entre Washington e Teerã, permeadas por desconfianças mútuas e interesses estratégicos conflitantes, não geraram ainda resultados tangíveis que alterem a dinâmica regional. Essa incapacidade de convergência revela a dificuldade das potências de traduzir ganhos táticos em equilíbrio geopolítico sustentável.
Somando-se a esse mosaico está o ressurgimento do escândalo Epstein, que reacende questões sobre impunidade, redes de poder e hipocrisia nos círculos ocidentais. A insistência editorial em certas narrativas e o tratamento seletivo de escândalos sugere uma crise mais ampla de valores, capaz de corroer a confiança pública nas instituições e nos veículos que deveriam informar com equilíbrio.
Em síntese, o quadro midiático ocidental dá sinais de tensão entre forma e conteúdo. A narrativa ocidental parece, por vezes, sustentada por uma matriz de desconfiança e por uma crise de valores que fragiliza a capacidade de propor soluções estratégicas estáveis. Numa era em que as tectônicas de poder se movem por abaixo do discurso público, é indispensável reconhecer os verdadeiros termos do confronto: não apenas atos simbólicos, mas concessões materiais sobre segurança, soberania e ordem internacional.
Como num tabuleiro de xadrez, cada movimento é calculado não apenas por sua aparência imediata, mas pelo espaço que cria para futuras manobras. A diplomacia exige, portanto, mais do que retórica elevada: requer alicerces reais, visão estratégica e a predisposição para reconhecer que a arquitetura da paz passará por compromissos difíceis e por uma cartografia renovada das zonas de influência.
Marco Severini é analista sênior de geopolítica e estratégia internacional para a Espresso Italia.






















